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COMBINAÇÃO EXPLOSIVA
Félix Meireis
Diretor da RCF
Uma das consequências da grande crise na última década foi a aceleração da introdução
das novas tecnologias, da digitalização e de novas formas de organização do trabalho,
com muitas das mais inovadoras a optarem por mais trabalho à distância, contactos por
videoconferência e com visitas periódicas à sede.
Uma das forças mais decisivas nos mercados nas próximas décadas é a que resultará da
combinação da recente, atual e, diz-se, definitiva experiência forçada do teletrabalho por
milhões de empresas e centenas de milhões de profissionais com as capacidades emer-
gentes da robotização, da inteligência artificial, do “big data” e do “cloud computing”.
Estamos perante uma mudança de paradigma, que dinamizará dois tipos de mudanças nas
empresas. Por um lado, as mudanças internas, pois as empresas terão que alterar estraté-
gias, culturas, tecnologias, estruturas e mecanismos operacionais para sobreviver e ganhar
vantagens em mercados cada vez mais competitivos. Por outro lado, e é a mesma razão
por que os mercados passarão a ser mais difíceis para muitas empresas, a mudança que
aí vem far-se-á também pela emergência de novas empresas e pelo desaparecimento de
velhas empresas.
A grande questão da mudança hoje em dia tem a ver com a tremenda relevância que o
teletrabalho mostrou, revelando as grandes potencialidades futuras, assente em cortes de
custos, ganhos de produtividade e em maiores níveis de motivação, por um lado, e por
outro as atuais potencialidades da Internet, das tecnologias móveis, da inteligência artificial, do “cloud computing” e do “big
data”. Neste novo ambiente, como pode uma empresa organizar-se para satisfazer os clientes atuais e potenciais, minimi-
zando os custos e aumentando a qualidade? É um desafio de fundo para as empresas atuais e é uma oportunidade estraté-
gica para as empresas emergentes.
Em tempos de crise e de transformação, de certa forma, as melhores empresas são as que ainda não existem, porque po-
dem adaptar-se ao contexto, estar bem ajustadas aos condicionalismos e às potencialidades dos mercados, da cultura e da
tecnologia. A alteração na competitividade de regiões e de países faz-se, em boa medida, através da criação de novas em-
presas, novas organizações, novos processos e novas dinâmicas ajustados a um meio envolvente em mudança.
Mas, se as expectativas são elevadas, o risco também é. E a experiência mostra que apenas uma pequena parte das no-
vas empresas sobrevive passados alguns anos após ter iniciado a atividade. Nos últimos anos foram criadas por todo o
mundo milhões de empresas inovadoras, a um ritmo nunca antes visto, com tudo para apoiar a mudança de paradigma.
Havia grandes expectativas quanto à sua capacidade de induzir evoluções disruptivas. A brutal crise atual veio ditar o seu
afastamento prematuro, antes de poderem consolidar a sua estrutura de organização, financiamento e mercados. Quer isto
dizer que hoje e ainda um desafio essencial é a adaptação das empresas atuais ao novo contexto do teletrabalho e das
novas tecnologias.
P. S. - Doze longos anos após a insolvência do Lemon Brothers, que ditou o início da pior crise económica por que passa-
mos depois da crise de 1929, ainda estava longe o processo de reestruturação das empresas e economias, como se pode
ver pelos recortes de imprensa sobre reestruturações, aquisições, fusões e despedimentos, apresentados nas últimas pági-
nas da RCF. Intencionalmente, não apresentamos notícias sobre a atual, nova e brutal crise. Ainda não tínhamos saído de
uma e já estamos noutra muito pior!

