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A INVASÃO DOS MESTRADOS
Félix Meireis
Diretor da RCF
assaram-se já quatro anos que a OCDE apresentou o relatório de diagnóstico “Uma estraté-
gia de competências para Portugal”, com base em três pilares interligados: o desenvolvi-
P mento das competências da infância até à idade adulta, a efetiva atuação da oferta de com-
petências em todo o mercado de trabalho e a utilização diversificada mas sólida das competências
em toda a economia e também na sociedade.
O estudo “O futuro do Trabalho em Portugal”, do McKinsey Global Institute e da Nova School of
Business and Economics, divulgado em janeiro pela Confederação Empresarial de Portugal, refere
que até 2030 Portugal poderá perder 1,1 milhões de postos de trabalho como resultado direto da
automação. Áreas como a indústria transformadora e o comércio concentrarão 40% das perdas,
num total estimado de 440 mil empregos.
A destruição prevista poderá ser compensada pela criação de 600 mil novos empregos em setores
como a saúde, assistência social, ciência, profissões técnicas e construção e poderá obrigar à re-
qualificação de 37,5% dos trabalhadores portugueses.
A maioria dos alunos que ingressaram recentemente no sistema de ensino básico irá trabalhar, ter
empregos e áreas de trabalho que ainda não existem. As competências e qualificações farão toda a
diferença no mercado de trabalho. As melhores competências serão as que tiverem mais e melhor
diversificação.
As “novas soft “skills” vão marcar o futuro. Serão as que nos preparam melhor para continuar a
aprender durante toda a vida, num mundo global, cada vez mais aberto e concorrencial.
Foi já há 20 anos que 29 países subscreveram a Declaração de Bolonha, com o objetivo de criar um Espaço Europeu de Ensino Supe-
rior, com três ciclos de estudos: licenciatura, mestrado e doutoramento. Hoje reúne 48 países, unidos no compromisso de tornar os
seus sistemas de ensino mais comparáveis e compatíveis, facilitando a mobilidade dos estudantes e o reconhecimento dos seus per-
cursos, independentemente da instituição onde estudaram ou onde se diplomaram.
Houve também um aumento de inscritos no ensino superior, tanto pela introdução de formações curtas (dois anos) nos politécnicos
(Tesp), em que cerca de 60% dos alunos acabam por seguir para as licenciaturas, como também por via dos mestrados. Antes da revi-
são dos graus determinada por Bolonha havia 12 mil inscritos em mestrados e hoje são mais de 60 mil. Também a diversificação é
evidente: há 1068 licenciaturas e 2474 mestrados.
Mas dois objetivos fundamentais para mudar o paradigma no ensino superior, pretendidos por Bolonha não estão ainda a ser alcança-
dos. Um é a formação ao longo da vida. É um dos nossos principais défices. Em Portugal a idade média dos estudantes de ensino su-
perior é de 25 anos e cerca de 72% têm até essa idade. Já no centro e norte da Europa os estudantes até aos 25 anos representam
apenas 58% do total. Significa que esses países levam vantagem na qualificação, requalificação e preparação dos menos jovens, atu-
ais trabalhadores, para enfrentar as grandes transformações atuais e futuras.
Estudar ao longo da vida, voltar á escola, é cada vez mais necessário, no contexto da rápida transformação digital da sociedade e da
economia. Apesar da grande e diversificada oferta, verifica-se que os mestrados funcionam geralmente apenas á noite, mas a grande
maioria dos alunos ainda são alunos que acabaram recentemente a licenciatura e não procuraram ainda um emprego, ou já trabalham
mas preferem completar a sua formação de imediato. Sendo formações especializadas, esperava-se que seriam mais frequentadas
numa fase posterior, depois dum primeiro contacto com a vida profissional, para perceber a área em que queriam trabalhar e só depois
escolher o mestrado que lhes possa dar essa especialização.
Outro dos objetivos de Bolonha era a transformação na forma de ensinar e de trabalhar com os alunos. A ideia era que as universida-
des não fossem apenas locais para a aprendizagem científica e técnica, mas também de outras competências importantes para o mer-
cado de trabalho e para a vida. Falta modernizar a forma como se ensina. Ou como se aprende.

