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                     VAMOS TRABALHAR 4 DIAS POR SEMANA …?

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                                                                  Diretor da RCF


        A chegada da geração Z ao mundo do trabalho veio diversificar o ambiente de trabalho a quatro gera-
        ções: baby boomers, geração X, millennials e geração Z. Cruzam-se agora numa só realidade diferentes
        qualificações, necessidades, expectativas, objetivos e formas de olhar o mundo.

        A geração Z ou zoomers engloba os primeiros nativos digitais, aqueles que praticamente não se lem-
        bram de um mundo sem smartphones. É a geração mais qualificada de sempre. Sentem-se qualificados
        mas mal pagos e sem verem satisfeitas as suas aspirações. Recente artigo da Bloomberg dizia que a
        Geração Z pode estragar os planos de Xi Jinping para a economia chinesa, pela insatisfação em que se
        encontra.

        Depois de uma pandemia global, da ascensão fulminante do teletrabalho e de outras mudanças na for-
        ma como trabalhamos, a maneira como os profissionais encaram o emprego mudou.

        O que se pretende agora é que haja uma redução do número de horas de trabalho semanal, abaixo das
        40 horas e sem perda de rendimento, de forma a que as pessoas tenham mais disponibilidade para si
        próprias, tornando-se pessoas mais felizes, logo mais produtivas, mais eficientes e satisfeitas, com be-
        nefícios para as empresas e para a Sociedade. Advogam-se incentivos, designadamente à contratação e
        redução da carga fiscal, quer do lado dos trabalhadores quer do lado das empresas.

        À semelhança do que está a acontecer em vários países, e na sequência da apresentação de proposta
        no Conselho de Concertação Social, também o nosso governo avançou para a semana de 40 horas,
        através da implementação de um projeto piloto para cerca de 30 empresas de variados setores, a iniciar
        em 1 de junho próximo, tendo-se logo inscrito 90 empresas.

        O projeto piloto realizado no Reino Unido terminou já, com a conclusão do relatório de que foi um “êxito retumbante”. Das empresas partici-
        pantes, 92% adotaram já este horário semanal reduzido, com vários benefícios assinalados a comprovarem uma melhor performance empre-
        sarial.

        Este mais longo projeto foi desenvolvido pela organização sem fins lucrativos 4 Day Week Global, uma plataforma que defende a ideia da
        semana de 4 dias como parte integrante do futuro do trabalho, em parceria com o think tank Autonomy, o qual assegura que uma semana
        mais curta de trabalho deverá constituir um pilar central do nosso futuro económico, contando igualmente com o Boston College e a Universi-
        dade de Cambridge.

        No entanto, um inquérito acabado de realizar pela AEP junto de empresas suas associadas revelou que cerca de um terço considera que a
        semana de 4 dias só beneficiará os trabalhadores e outro terço que não trará benefícios para ninguém. Um longo caminho a percorrer.

        Pelos relatórios divulgados pela OXFAM, pela altura das reuniões dos Forum de Davos, verificamos que se em 2010 a riqueza dos 1% mais
        ricos, 388 pessoas, era igual (50%) à dos restantes 99% mais pobres, este valor era atingido por apenas 80 pessoas em 2014 (RCF 120), 62
        pessoas em 2015 (RCF 124), 8 pessoas em 2017 (RCF 128), sendo que em 2022 as 10 pessoas mais ricas já possuem cerca de dois terços
        da riqueza mundial. Não será de estranhar a aspiração de uma maior participação nos benefícios da riqueza criada.

        Durante os últimos cinco anos, a semana de quatro dias passou de uma ideia “absurda” para uma possibilidade real, emergindo como uma
        das mais estimulantes políticas laborais a ser adotada por várias organizações em todo o mundo.

        A ideia central, diminuir o horário de trabalho sem perda de remuneração, pode ter tido uma “ajuda” da cultura de “burnout”, que assentava na
        crença de que trabalhar mais significava trabalhar melhor, mas na sequência do sucesso de projetos-piloto em todo o mundo, dos resultados
        muito positivos de várias investigações e das mudanças sociais impulsionadas pela Covid, a redução do tempo de trabalho parece ser cada
        vez mais uma abordagem de “senso comum” aplicada ao mundo do trabalho.

        Por fim, uma notícia triste, sinal dos tempos nos órgãos de comunicação: a passagem da RCF a semestral.
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