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- independentemente da profundidade dos seus conhecimentos   vantagem competitiva nos negócios. Os portugueses usavam
        R      financeiros - ter desconfiado de tamanha benesse e percebido   algarismos romanos, cometendo erros frequentes nas contas
        E      que aquilo cheirava a esturro, tal a rendibilidade conseguida.   e na conversão de câmbios, o que foi desastroso na Feitoria
        V      Pois. Esses, os tugas comuns, estavam a ser ‘xicos-espertos’,   da  Flandres,  agravou  a  nossa  dívida  e  contribuiu  para  a
               portanto tiveram o que mereciam. Porque, de facto, 6% ao ano
         I                                                         bancarrota de 1560. (…)”
        S      é uma fartura que devia fazer disparar todos os sinais de alarme.   Virgílio Azevedo, Expresso/Atual, 31 de agosto de 2013
               Já 150% ao ano, aparentemente, é normal.
        T
               Machete não estranhou que lhe dessem dinheiro a ganhar sem      Portugal  impede  fuga  de  capital  do  ex-chefe  da
               fazer seja o que for em troca, efectivamente lesando o banco,   Pescanova
        A
        D      isto é, os accionistas do banco. E não estranhou porque faz
               parte desta elite que vai tendo cargos pelo nome, e não pelas   “A  Polícia  Judiciária  impediu  que  a  mulher  de  Manuel
        E
        C      efectivas competências que possa trazer à instituição que o   Fernández de Sousa-Faro, ex-presidente do grupo Pescanova,
        O      contrata.  Aliás,  tanto  no  caso  de  Rui  Machete  como  no  de   transferisse para a China quatro milhões de euros através de
               muitos  outros,  a  benesse  dada  pelo  banco  tinha  intenções
        N      óbvias: no mínimo comprar credibilidade para a instituição   uma conta em Portugal. O ex-executivo enfrenta um processo
        T      (dava estilo dizer à boca pequena que era o banco de Cavaco)   em  tribunal  por  diversos  delitos  financeiros  e  está  obrigado
        A      e,  no  máximo,  comprar  o  silêncio  e  a  boa-vontade  dos   pela Audiência Nacional (o tribunal) a pagar uma caução de
                                                                   179  milhões  de  euros.  A  operação  bloqueada  pela  Polícia
        B      beneficiados. (…)”                                  Judiciária  tinha  como  destino  uma  conta  em  nome  de  María
         I                                                         Rosario Andrade Detrell, mulher de Sousa-Faro, num banco da
        L              Tiago Freire, Diário Económico, 6 de agosto de 2013  República Popular da China. (…)
         I
        D          Verão                                           A  situação  está  cada  vez  pior  para  o  ex-presidente  da
        A                                                          Pescanova, que se demitiu em julho depois de uma auditoria
        D      “O  verão  sempre  foi  a  estação  do  meu  descontentamento.   da KPMG ter revelado um buraco de 927 milhões de euros
               Os  ingleses  chamam-lhe  a  ‘silly  (tola,  pateta)  season’,   e  uma  dívida  superior  a  3,2  mil  milhões.  A  empresa  foi
               mas em Portugal a farsa dá em tragédia. As trocas (swaps)   dada como tecnicamente falida, mas já na semana passada
        E
               e  baldrocas  nunca  mais  acabam,  e  é  penoso  assistir  a  esta   a Deloitte divulgou contas ainda mais arrasadoras: o buraco
               tropa-fandanga  de  ministros,  secretários  e  porta-vozes  a
        E
        F      meterem os pés pelas mãos, a dar o dito por não dito, a ter   patrimonial será de 1,667 mil milhões de euros. A consultora,
         I     lapsos  de  memória,  evidenciando  as  suas  gritantes  faltas   que foi nomeada administradora do concurso de credores da
        N      de  ética  e  de  vergonha.  Pode  ser  legal,  mas  é  nojento.  Às   Pescanova, escreveu no relatório divulgado a 5 de setembro
        A      vezes parecem putas a querer passar por virgens ofendidas.   que a empresa ocultou contas e realizou operações fictícias.
        N      O povo é que não pode tolerar tais baixezas. Aliás, quando   Em maio, soube-se que a Comisión Nacional del Mercado
        Ç      um  político  português  diz  que  está  muito  tranquilo,  fico   de  Valores  (CNMV)  suspeitava  de  contabilidade  dupla
        A      logo em sobressalto. Eis, no seu pior, o pântano mefítico de   na  Pescanova  há  pelo  menos  dois  anos.  A  empresa  teria
               que Guterres falava. Mais importante do que o saneamento   escondido o seu passivo real, que era três vezes superior ao
               básico é a higiene política. A segunda potencia a primeira,   comunicado  nos  relatórios  anuais  de  contas.  A  BDO,  que
        S
        N.º    mas a inversa não é verdadeira. (…)                 auditou  estes  relatórios,  viu-se  arrastada  para  o  escândalo
                                                                   financeiro  que  atingiu  a  empresa  galega  e  foi  processada
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               A  promiscuidade  banca-empresas-Estado  ao  mais  alto  nível   pelo fundo de investimento norte-americano Cartesian, que
               (gestão) é um polvo de tentáculos longos. O problema não é o   detém  5%  do  capital  da  Pescanova,  pela  responsabilidade
               capitalismo nem o socialismo. O problema são os capitalistas e   na  verificação  contabilística  dos  relatórios.  Na  segunda-
               os socialistas. Os males de Portugal são os portugueses: os que   feira,  o  juiz  Pablo  Ruz  impôs  uma  caução  recorde  de  1,2
               nos lideram, e nós que os pomos lá.”                mil milhões de euros a dez executivos da Pescanova e seis
                                                                   sociedades.”
                        Jorge Calado, Expresso/Atual, 17 de agosto de 2013
                                                                     Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 8 de setembro de 2013
                   Erros estratégicos da nossa História
      30       “(…) Por outro lado, o livro (As Lições dos Descobrimentos,     Novo papel para os TOC
               de  Jorge  Nascimento  Rodrigues  e  Tessaleno  Devezar)   “Se o novo regime simplificado (de tributação de IRC) avançar
               identifica  cinco  erros  estratégicos  da  nossa  História  entre   vai haver uma mudança significativa na actividade dos TOC
               1415 e 1900 que levaram ao declínio do país como potência   porque  deixará  de  ser  necessário  apurar  a  matéria  colectável
               hegemónica: a expulsão dos judeus, a tentação sistemática   pelo lucro real, de acordo com as regras do SNC. Até agora
               de  um  posicionamento  geoestratégico  de  proximidade,  o   a  Ordem  dos  TOC  tem  sido  contrária  à  simplificação  das
               analfabetismo  em  matemática  e  contabilidade,  a  avaliação   obrigações declarativas nas pequenas empresas por recear uma
               geopolítica  e  obsoleta  feita  pelos  liberais  da  revolução  de   quebra na actividade da profissão.
               1820 e a falta de liderança e de gestão em momentos de crise
               sistémica  (crise  financeira,  económica,  social  e  política).   Portugal é o único país da União Europeia onde é obrigatória
               (…)                                                 a intervenção dos TOC nas declarações fiscais das empresas.
         j                                                         Os TOC têm também obrigações e responsabilidades perante
         u     Os  erros  estratégicos  da  liderança  portuguesa  nas  dinastias
         l     de Aviz e de Bragança foram cometidos em três períodos da   a Administração Fiscal, complementando a acção da inspecção
         h     História associados aos Descobrimentos e ao império colonial.   tributária com um papel do qual não existe paralelo em outros
         o     O  primeiro  foi  a  fase  de  emergência,  expansão  e  auge  da   países.
               projeção externa de Portugal entre 1415 (conquista de Ceuta)
         /                                                         Portugal está também entre os países que exigem mais horas
               e 1521 (morte de D. Manuel I), onde os autores identificam a   de  trabalho  às  empresas  para  o  cumprimento  das  obrigações
         s     expulsão dos judeus por D. Manuel I como ‘o erro mais grave   declarativas, sendo grande parte desse trabalho realizado pelos
         e     e  com  um  impacto  «sistémico»  de  longa  duração’.  Portugal   TOC. Uma empresa portuguesa precisa de dedicar 63 horas às
         t     ficou sem o pilar financeiro fundamental para dar consistência   suas obrigações declarativas quando a média da União Europeia
         e     ao  seu  capitalismo  monárquico,  ‘deixando  o  financiamento   está nas 40 horas.
        m      da Expansão nas mãos do capital internacional’ e a economia
         b     sujeita  aos  ciclos  de  especulação.  O  país  perdeu,  assim,  o   Com o regime simplificado proposto pela Comissão de Reforma
         r     comboio  da  revolução  financeira  que  marcaria  os  séculos   haverá  uma  redução  significativa  do  trabalho  actualmente
         o     XVI e XVII na Flandres (onde se refugiou uma boa parte dos   exigido aos TOC. É provável que a simplificação não contemple
               judeus expulsos de Portugal), Génova, Amesterdão e mais tarde   apenas o IR, sendo alargada aos outros impostos. (…)
         2     Londres.
         0                                                         O  novo  papel  da  profissão  está  em  aberto.  O  Bastonário
         1     A isto juntou-se o problema do analfabetismo em contabilidade   da  OTOC  vem  defendendo  o  alargamento  da  competência
         3     moderna  da  burguesia  compradora  e  da  administração   reservada aos TOC, impondo a sua intervenção obrigatória nas
               pública, nas feitorias e no império. Os judeus e os italianos   declarações da Segurança Social. (…)”
               tinham uma contabilidade baseada nos dez algarismos indo-
               -árabes,  que  incluía  o  zero,  o  que  lhes  dava  uma  grande    Vida Económica, 16 de setembro de 2013
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