Page 30 - rcf1114_Neat
P. 30
- independentemente da profundidade dos seus conhecimentos vantagem competitiva nos negócios. Os portugueses usavam
R financeiros - ter desconfiado de tamanha benesse e percebido algarismos romanos, cometendo erros frequentes nas contas
E que aquilo cheirava a esturro, tal a rendibilidade conseguida. e na conversão de câmbios, o que foi desastroso na Feitoria
V Pois. Esses, os tugas comuns, estavam a ser ‘xicos-espertos’, da Flandres, agravou a nossa dívida e contribuiu para a
portanto tiveram o que mereciam. Porque, de facto, 6% ao ano
I bancarrota de 1560. (…)”
S é uma fartura que devia fazer disparar todos os sinais de alarme. Virgílio Azevedo, Expresso/Atual, 31 de agosto de 2013
Já 150% ao ano, aparentemente, é normal.
T
Machete não estranhou que lhe dessem dinheiro a ganhar sem Portugal impede fuga de capital do ex-chefe da
fazer seja o que for em troca, efectivamente lesando o banco, Pescanova
A
D isto é, os accionistas do banco. E não estranhou porque faz
parte desta elite que vai tendo cargos pelo nome, e não pelas “A Polícia Judiciária impediu que a mulher de Manuel
E
C efectivas competências que possa trazer à instituição que o Fernández de Sousa-Faro, ex-presidente do grupo Pescanova,
O contrata. Aliás, tanto no caso de Rui Machete como no de transferisse para a China quatro milhões de euros através de
muitos outros, a benesse dada pelo banco tinha intenções
N óbvias: no mínimo comprar credibilidade para a instituição uma conta em Portugal. O ex-executivo enfrenta um processo
T (dava estilo dizer à boca pequena que era o banco de Cavaco) em tribunal por diversos delitos financeiros e está obrigado
A e, no máximo, comprar o silêncio e a boa-vontade dos pela Audiência Nacional (o tribunal) a pagar uma caução de
179 milhões de euros. A operação bloqueada pela Polícia
B beneficiados. (…)” Judiciária tinha como destino uma conta em nome de María
I Rosario Andrade Detrell, mulher de Sousa-Faro, num banco da
L Tiago Freire, Diário Económico, 6 de agosto de 2013 República Popular da China. (…)
I
D Verão A situação está cada vez pior para o ex-presidente da
A Pescanova, que se demitiu em julho depois de uma auditoria
D “O verão sempre foi a estação do meu descontentamento. da KPMG ter revelado um buraco de 927 milhões de euros
Os ingleses chamam-lhe a ‘silly (tola, pateta) season’, e uma dívida superior a 3,2 mil milhões. A empresa foi
mas em Portugal a farsa dá em tragédia. As trocas (swaps) dada como tecnicamente falida, mas já na semana passada
E
e baldrocas nunca mais acabam, e é penoso assistir a esta a Deloitte divulgou contas ainda mais arrasadoras: o buraco
tropa-fandanga de ministros, secretários e porta-vozes a
E
F meterem os pés pelas mãos, a dar o dito por não dito, a ter patrimonial será de 1,667 mil milhões de euros. A consultora,
I lapsos de memória, evidenciando as suas gritantes faltas que foi nomeada administradora do concurso de credores da
N de ética e de vergonha. Pode ser legal, mas é nojento. Às Pescanova, escreveu no relatório divulgado a 5 de setembro
A vezes parecem putas a querer passar por virgens ofendidas. que a empresa ocultou contas e realizou operações fictícias.
N O povo é que não pode tolerar tais baixezas. Aliás, quando Em maio, soube-se que a Comisión Nacional del Mercado
Ç um político português diz que está muito tranquilo, fico de Valores (CNMV) suspeitava de contabilidade dupla
A logo em sobressalto. Eis, no seu pior, o pântano mefítico de na Pescanova há pelo menos dois anos. A empresa teria
que Guterres falava. Mais importante do que o saneamento escondido o seu passivo real, que era três vezes superior ao
básico é a higiene política. A segunda potencia a primeira, comunicado nos relatórios anuais de contas. A BDO, que
S
N.º mas a inversa não é verdadeira. (…) auditou estes relatórios, viu-se arrastada para o escândalo
financeiro que atingiu a empresa galega e foi processada
114
A promiscuidade banca-empresas-Estado ao mais alto nível pelo fundo de investimento norte-americano Cartesian, que
(gestão) é um polvo de tentáculos longos. O problema não é o detém 5% do capital da Pescanova, pela responsabilidade
capitalismo nem o socialismo. O problema são os capitalistas e na verificação contabilística dos relatórios. Na segunda-
os socialistas. Os males de Portugal são os portugueses: os que feira, o juiz Pablo Ruz impôs uma caução recorde de 1,2
nos lideram, e nós que os pomos lá.” mil milhões de euros a dez executivos da Pescanova e seis
sociedades.”
Jorge Calado, Expresso/Atual, 17 de agosto de 2013
Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 8 de setembro de 2013
Erros estratégicos da nossa História
30 “(…) Por outro lado, o livro (As Lições dos Descobrimentos, Novo papel para os TOC
de Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezar) “Se o novo regime simplificado (de tributação de IRC) avançar
identifica cinco erros estratégicos da nossa História entre vai haver uma mudança significativa na actividade dos TOC
1415 e 1900 que levaram ao declínio do país como potência porque deixará de ser necessário apurar a matéria colectável
hegemónica: a expulsão dos judeus, a tentação sistemática pelo lucro real, de acordo com as regras do SNC. Até agora
de um posicionamento geoestratégico de proximidade, o a Ordem dos TOC tem sido contrária à simplificação das
analfabetismo em matemática e contabilidade, a avaliação obrigações declarativas nas pequenas empresas por recear uma
geopolítica e obsoleta feita pelos liberais da revolução de quebra na actividade da profissão.
1820 e a falta de liderança e de gestão em momentos de crise
sistémica (crise financeira, económica, social e política). Portugal é o único país da União Europeia onde é obrigatória
(…) a intervenção dos TOC nas declarações fiscais das empresas.
j Os TOC têm também obrigações e responsabilidades perante
u Os erros estratégicos da liderança portuguesa nas dinastias
l de Aviz e de Bragança foram cometidos em três períodos da a Administração Fiscal, complementando a acção da inspecção
h História associados aos Descobrimentos e ao império colonial. tributária com um papel do qual não existe paralelo em outros
o O primeiro foi a fase de emergência, expansão e auge da países.
projeção externa de Portugal entre 1415 (conquista de Ceuta)
/ Portugal está também entre os países que exigem mais horas
e 1521 (morte de D. Manuel I), onde os autores identificam a de trabalho às empresas para o cumprimento das obrigações
s expulsão dos judeus por D. Manuel I como ‘o erro mais grave declarativas, sendo grande parte desse trabalho realizado pelos
e e com um impacto «sistémico» de longa duração’. Portugal TOC. Uma empresa portuguesa precisa de dedicar 63 horas às
t ficou sem o pilar financeiro fundamental para dar consistência suas obrigações declarativas quando a média da União Europeia
e ao seu capitalismo monárquico, ‘deixando o financiamento está nas 40 horas.
m da Expansão nas mãos do capital internacional’ e a economia
b sujeita aos ciclos de especulação. O país perdeu, assim, o Com o regime simplificado proposto pela Comissão de Reforma
r comboio da revolução financeira que marcaria os séculos haverá uma redução significativa do trabalho actualmente
o XVI e XVII na Flandres (onde se refugiou uma boa parte dos exigido aos TOC. É provável que a simplificação não contemple
judeus expulsos de Portugal), Génova, Amesterdão e mais tarde apenas o IR, sendo alargada aos outros impostos. (…)
2 Londres.
0 O novo papel da profissão está em aberto. O Bastonário
1 A isto juntou-se o problema do analfabetismo em contabilidade da OTOC vem defendendo o alargamento da competência
3 moderna da burguesia compradora e da administração reservada aos TOC, impondo a sua intervenção obrigatória nas
pública, nas feitorias e no império. Os judeus e os italianos declarações da Segurança Social. (…)”
tinham uma contabilidade baseada nos dez algarismos indo-
-árabes, que incluía o zero, o que lhes dava uma grande Vida Económica, 16 de setembro de 2013

