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                              JUSTO RECONHECIMENTO

                                                                 Félix Meireis
                                                                Diretor da RCF

        O falecimento do Professor Mariano Gago proporcionou a oportunidade rara para um reconhecimento
        unânime do acerto da sua visão estratégica e das suas políticas para a ciência, que permitiu ao país dar
        um enorme salto qualitativo e quantitativo na área da ciência nos últimos vinte anos.

        A comunidade científica portuguesa no país inteiro prestou-lhe uma justa homenagem, interrompendo as
        suas atividades e  observando à porta das universidades, politécnicos e centros de investigação alguns
        minutos de silêncio e reflexão.

        Devemos ao Professor Mariano Gago ter colocado a ciência e a investigação no centro das políticas
        para o desenvolvimento, ter colocado no centro da ambição política a sociedade do conhecimento, ter
        mudado o paradigma da ciência em Portugal. Teve uma visão para a ciência e a cultura científica e con-
        seguiu pô-la em prática.

        Ele próprio um cientista, doutorado e fazendo ciência no estrangeiro, regressou ao país, vindo a presidir
        à JNICT, que daria origem à FCT. Fez parte de quatro governos socialistas: duas vezes como ministro
        da Ciência e Tecnologia, entre 1995 e 2002, nos governos de António Guterres, e duas vezes como
        ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, entre 2005 e 2011, nos governos de José Sócrates,
        sendo o ministro que mais tempo esteve no governo, o que lhe permitiu pensar, implementar e consoli-
        dar todo um programa.

        Percebeu a necessidade de Portugal recuperar décadas de atraso nesta área. Aumentou o investimento
        na ciência, promoveu a ida para o estrangeiro de bolsistas e doutorandos e incentivou a vinda para o
        ensino superior e centros de pesquisa de investigadores de nível mundial, muitos deles portugueses a
        trabalhar no estrangeiro.

        Devemos-lhe também a instituição da avaliação internacional da ciência que se faz em Portugal. A avaliação internacional das unidades de
        investigação é dele. Entendeu que não era possível pedir a confiança do país e afirmar a ambição de vencer em tempo curto um atraso cientí-
        fico que já se tornara uma fatalidade sem esperança sem apelar para o acompanhamento e a avaliação exclusivamente internacionais da
        ciência em Portugal.

        Há 20 anos o país tinha cerca de 5000 doutorados no total. Hoje em dia conseguimos formar cerca de 2000 por ano. De uma ciência incipien-
        te, sem impacto e sem relevância, passamos a publicar nas revistas científicas mais importantes. Hoje temos unidades de investigação cos-
        mopolitas, internacionais, com estudantes vindos dos quatro cantos do mundo.

         Das bolsas “milionárias” atribuídas pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), os centros de investigação portugueses conseguiram em
        2014 obter já 15 bolsas, no valor de 26 milhões de euros, que poderá ainda aumentar, quando em 2013 foram apenas nove e duas em 2007,
        como resultado natural do grande incremento da ciência portuguesa, da melhoria da sua qualidade e da sua competitividade.

        Uma área onde os resultados obtidos estão ainda aquém do pretendido refere-se ao desequilíbrio entre a nossa capacidade de gerar conheci-
        mento científico e a oportunidade de o transformar em riqueza económica. A atual crise económica e financeira, com redução do investimento
        e dificuldades de financiamento, terá a ver com esta realidade, que também se tem traduzido no reduzido número de doutorados  que são
        absorvidos pelo setor empresarial.

        Na área da contabilidade são impressionantes os progressos obtidos: de um mestrado no início da década de noventa, passamos para deze-
        nas de mestrados em escolas de ensino superior universitário e politécnico, públicas e privadas, e diversas universidades têm programas de
        doutoramento. Também já muitos  fizeram doutoramentos no estrangeiro. Muitos dedicam-se à investigação em centros existentes nas suas
        escolas. A investigação em história da contabilidade conhece atualmente um grande incremento.

        A aposta no conhecimento é a única que pode sustentar uma economia competitiva num mercado global.
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