Page 19 - rcf126_Neat
P. 19

19





         massa artigos pouco diferenciados e os mercados não eram seg-  Limitações do Trabalho
         mentados, a empresa está fechada para si mesma, e não se preo-
         cupa em identificar as necessidades e os valores de um mercado   O desenvolvimento teórico na confrontação dos dois sistemas pos-
         alvo. O contexto e a conjuntura eram bastante previsíveis, determi-  tulacionais  é  afetado  pelo  pouco  debate  internacional  acerca  da
         nísticos, estáveis e lineares: uma vez conhecida a posição da em-  problemática da necessidade da existência ou não de uma estrutu-
         presa,  e  à  semelhança  de  um  mecanismo  de  um  relógio,  a  sua   ra concetual para a auditoria. O facto de a maioria dos autores e
         evolução  posterior  estaria  para  sempre  determinada  (Pagels,   pedagogos  não  incluírem  nos  seus  livros  a  análise  dos  sistemas
         1984:101).  Por  volta  dos  anos  50,  a  auditoria  externa  passa  da   populacionais  de  auditorias  introduz  necessariamente  algumas
         análise dos erros e fraudes e da pesquisa de despesas não autori-  limitações ao debate de ideias e ao exercício do contraditório, bem
         zadas, para a verificação da representação fiel dos resultados e do   como na capacidade de explicar o processo completo de auditoria e
         património da empresa (Edds, 1980:23).               o papel do auditor na sociedade.

         Esta mudança teve como consequência o desenvolvimento de no-  Sugestões para futuras investigações
         vos conceitos contabilísticos: os princípios contabilísticos geralmen-
         te  aceites,  novas  formas  de  reconhecimento  dos  gastos  e  rendi-   A contrastação empírica dos postulados de Flint (1988) e de Lee
         mentos e novas formas de medida dos resultados contabilísticos e   (1993) seria desejável no sentido de saber se os agentes que atu-
         introdução de técnicas de amostragem na auditoria.    am neste espaço profissional: auditores financeiros, internos e do
                                                              tribunal de contas, os consideram relevantes e aplicáveis no desen-
         Apesar disso, o auditor continuou a abordar as transações individu-  volvimento  dos  seus  trabalhos.  Por  outro  lado,  seria  importante
         almente consideradas. Neste contexto, a análise dos montantes do   auscultar os professores do ensino superior que ensinam auditoria,
         balanço, de todas as classes de transações, o julgamento do siste-  atendendo ao seu papel na formação de estudantes que, no futuro,
         ma de controlo interno, constituem o primeiro julgamento de materi-  podem optar pela profissão de auditor. O alargamento da investiga-
         alidade, e definem o domínio dos testes a realizar e os limites de   ção e outros sistemas postulacionais enriqueceria a investigação.
         responsabilidade  do  auditor  (Marques  de  Almeida,  2000:462).
         Acresce que a auditoria, de acordo com os pronunciamentos das   Bibliografia
         autoridades internacionais de contabilidade, absorveu estas tendên-
         cias empresariais e as novas filosofias de gestão, de que resulta   Almeida, B., 2005, Auditoria e Sociedade: diferenças de expectati-
         hoje uma conceção da auditoria de uma forma mais ampla e abran-  vas, Publisher Team.
         gente, ainda que com matizes diferentes.
                                                              Arens, A, Elder, R.L., Beasley, M.S., 2010, Auditing and Assurance
         Conclusões                                           Services: an integrated approach, Prentice Hall, New Jersey.

         Os sistemas postulacionais de Flint (1988) e Lee (1993) apresen-  Asare, S., Wrigth, A., 2012, Investors’, auditors’, and lenders’ under-
         tam algumas divergências marcantes não tanto na sua  conceção   standing of the message conveyed by the standard audit report on
         básica, mas sobretudo ao nível operacional. Ambos refletem novas   the financial statements, Accounting Horizons, Vol. 26, No 2, p. 193-
         exigências de uma sociedade preocupada com as relações de ac-  217.
         countability, não só na perspetiva da  shareholder theory, mas  na
         ótica mais abrangente da stakeholder theory. Ambas as concetuali-  Barrantes,  António,  1997,  Auditoría  Operativa,  Espanha:  Marcial
         zações apontam a dimensão social da auditoria, e a necessidade   Pons.
         de garantir a credibilização de um bem público, que todos reconhe-  Bell, T., Marrs, F.O., Solomon, I., Thomas, H., 1997,  Auditing Or-
         cem à informação financeira.                         ganizations Through a Strategic Systems Lens, University of Texas
                                                              at Austin, The KPMG Measurement Process.
         No desenvolvimento do processo, porém, assistimos a divergência
         profundas relativamente à responsabilidade do auditor na deteção   Bell,  T.,  Mcallister,  P.,  2011,  Expanded  Information  in  the  Audit
         de  erros  e  fraudes,  bem  como  na  necessidade  da  existência  de   Report, CPA Journal, Vol. 82, No 1, p. 22.
         auditoria financeira na sociedade que só deve ser obrigatória, se-
         gundo Lee (1993) quando existirem interesses externos significati-  Benau, M, 1997, Comparabilidad internacional de los informes de
         vos.  Enquanto  que  para  Flint  (1998)  a  auditoria  interna  pode  ser   auditoria, Estudios Financieros, nº 170.
         considerada  suficiente,  aquela,  no  sistema  postulacional  de  Lee,
         assume a natureza subsidiária. O sistema postulacional de Lee é   Carcello, V., 2012, What do investors want from de standard audit
         claramente uma evolução, adaptada no tempo, ou uma extensão do   report?, CPA Journal, Vol. 82, No 1, p. 22.
         SP de Mautz e Sharaf ao integrar as suas lacunas básicas: ausên-
         cia de explicação e fundamentação do papel de auditoria na socie-  Ciesielski, J., Weirich, R. A., 2012, New audit report, The CPA Jour-
         dade. Por sua vez, o SP de Flint é paralelamente uma evolução   nal, Vol. 82, No 2, p. 11-14.
         mais aperfeiçoada das ideias de Sherer e Kent (1983), refletindo o
         mesmo  tipo  de  preocupações,  mas  sugerindo  que  a  auditoria  se   Collins, J., Ruefli, T., 1996, The Strategic Risk: A State – Defined
         pode  estender  a  atividades  sem  processamento  contabilístico,  o   Approach,  Kluwer  Academic  Publishers,  Massachusetts,  United
         que  lhe  confere  um  importante  papel  de  instrumento  de  controlo   States.
         social.
   14   15   16   17   18   19   20   21   22   23   24