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DEZ ANOS DO COLAPSO DO LEHMAN BROTHERS
Félix Meireis
Diretor da RCF
15 de setembro de 2008. A falência do Lehman Brothers, o gigante e 4º maior banco de
investimentos dos EUA constitui um dos ícones da crise financeira global, expondo o mundo a
uma quebra de confiança antes inimaginável. Com o seu colapso mudou para sempre a histó-
ria económico-financeira mundial, contribuindo para a intensificação da crise financeira iniciada
um ano antes, ao dar vida à maior crise desde a grande depressão de 1929 e década de 30.
No dia seguinte foi a vez da seguradora AIG, com um resgate da Fed no valor de 85 mil
milhões de dólares. Também o Bank of América teve que comprar a corretora Merrill Linch por
35 mil milhões de dólares. Muitas situações semelhantes tiveram que ser socorridas num curto
período de tempo, abrangendo bancos, empresas, países.
Passados 10 anos, e em época de balanços, economistas como o Nobel Nouriel Roubini e
Brunello Rosa falam já abertamente na possibilidade de uma nova crise financeira e recessão
global em 2020, alertando que ao contrário da crise recente, assim que se dê a próxima contra-
ção económica e financeira, as ferramentas políticas disponíveis para reverter a situação irão
muito provavelmente ser menos eficazes.
Angel Curria, secretário-geral da OCDE, reconheceu, que não viu chegar a crise provoca-
da pela falência do banco, apelando ao mundo económico para ouvir as vítimas deste colapso
financeiro. Em 2007 as previsões asseguravam que a situação económica não estava tão boa
desde há vários anos.
Jean-Claude Trichet, ex-presidente do BCE, alertou para a situação financeira mundial, que se encontra num plano tão peri-
goso como o vivido em 2007, pois se o crescimento da dívida dos países desenvolvidos abrandou, em particular a privada, é
compensado com a aceleração da dívida dos países emergentes. Apesar de tudo considerou que se fez um bom trabalho na
supervisão da banca e que houve uma convergência entre os bancos centrais das economias avançadas, salientando que agora
o BCE, a Reseva Federal norte-americana e os bancos centrais do Japão e de Inglaterra têm a mesma definição da estabilidade
de preços.
Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, considera que foi percorrido um longo caminho, contudo alerta que ainda há desafi-
os e que o sistema financeiro está mais seguro, mas não o suficiente. Segundo o FMI, em 2016 atingiu-se um novo máximo his-
tórico da dívida mundial, de 164 biliões de dólares, equivalente a 225% do PIB mundial, mas continuando a aumentar.
Gary Cohn, ex-conselheiro de Trump, declarou que as normas implementadas desde a crise financeira só levaram a que os
bancos “demasiado grandes para falir” … ficassem ainda maiores, penalizando a concorrência no setor.
Ben Bernanke, presidente da Fed quando o Lehman Brothers declarou falência, afirmou que ninguém previu quão abrangen-
te e devastadora seria a crise e embora as reformas de um modo geral tenham melhorado significativamente a resistência do
sistema a choques ao elevar o capital dos bancos e outras medidas, os formuladores de políticas precisam de ter as ferramentas
apropriadas para combater a próxima crise, estando, neste aspeto, menos otimista.
As crises são um fenómeno natural, resultando na maioria dos casos de situações de fuga para a frente, de excessos de
confiança ou desespero, de grande inovação desenfreada, de ganância. Uma vez que nunca se conseguirá antever ou eliminar
as crises, importa avaliar o grau de preparação e a capacidade de controlo de futuras crises. A última apanhou todos despreveni-
dos. Os que confiavam nos que tinham a máxima obrigação de estar alerta e os que nunca foram alertados. A próxima será igual …

