Page 7 - rcf134
P. 7

7





        manente, não alterando estruturalmente a posição orça-  nanças Públicas.
        mental).
                                                                  Princípio 2: A natureza “one-off” não depende de
            As medidas “one-off” tendem a ser de um de 4 tipos:   ser  decretada  pelo  governo  nem  por  qualquer
                                                                  decisão de tipo legislativo.
           1.  Medidas que melhoram a posição orçamental no
              curto prazo, através de venda de ativos ou de as-   A  classificação  como  “one-off”  não  pode  estar  de-
              sunção de passivos futuros (“liabilities”).     pendente de um anúncio político da medida como tem-
                                                              porária ou permanente. Isto porque não raramente medi-
           2.  Medidas que permitem um “lump-sum” no imediato   das anunciadas como temporárias tornam-se permanen-
              mas que representam um custo para os anos se-   tes e medidas anunciadas como permanentes são inter-
              guintes .                                       rompidas e terminadas.
                    18

           3.  Medidas  que  implicam  uma  alteração  no  padrão   Assim, a classificação de uma medida como “one-
              temporal  das  receitas  ou  das  despesas,  criando   off” não depende do anúncio por parte do governo relati-
              um pico temporário (positivo ou negativo) no pa-  vo à sua duração (de outra forma os governos seriam
              drão das receitas ou despesas.                  tentados a faze-lo de forma a evitar a classificação da
                                                              medida como “one-off”, além de que obrigaria a constan-
           4.  Medidas  que  resultam  de  eventos  excecionais ,   tes  revisões  das  decisões  que  são  tomadas,  e  conse-
                                                         19
              não controláveis, tais como decisões judiciais, mas   quentemente, a constantes revisões do défice e da dívi-
              não inclui as medidas extraordinárias que resultem   da pública em cada ano). A classificação como “one-off”
              de “acts of God”. Contudo, estas medidas podem   depende exclusivamente daquilo que decorre do princí-
              ter um efeito estrutural (por exemplo uma decisão   pio 1.
              judicial pode impactar apenas num ano ou levar a
              uma alteração substancial da tributação), pelo que   Princípio 3: Componente  volátil  da  receita  e  da
              devem ser analisadas com algum cuidado. Assim,      despesa não é considerada como “one-off”.
              caso o efeito se prolongue para lá de 2 anos, parte
              desse efeito deve ser considerado como estrutu-     O  conceito  de  “one-off”  não  deve  ser  confundido,
              ral.  Caso  o efeito apenas se  venha  a  considerar   nem usado, num contexto de ciclo económico, que gera
              como  estrutural  passado  alguns  anos,  deve  ser   volatilidade nas componentes de receita (sobretudo fis-
              revisto a classificação estatística, revendo o valor   cal) e de despesa (sobretudo subsídios, via estabilizado-
              do défice e da dívida pública nos anos em causa.    res automáticos) . Isto porque no saldo estrutural o im-
                                                                             20
                                                              pacto do ciclo económico já é corrigido, por via do pro-
            Estas medidas caem no âmbito das medidas “one-    duto potencial.
        off” para efeitos do cálculo do saldo estrutural, mas têm
        natureza diferente, já que resultam de eventos não con-   Princípio     4:    medidas      deliberadas
        troláveis                                                 (discricionárias)  de  política  orçamental  que  au-
                                                                  mentam  o  défice  não  são,  por  regra,  classifica-
            Mesmo  que  uma  medida  não  seja  inserida  numa    das como “one-off”.
        destas 4 hipóteses, mesmo assim ainda pode ser classi-
        ficada  como  “one-off”,  desde  que  seja  avaliada  a  sua   O  conceito  de  “one-off”  foi  introduzido  sobretudo
        frequência, o nível de controlo que o governo tem da me-  para evitar que medidas pontuais que não melhoram a
        dida (ver princípio 4 mais à frente) e o risco de dar incen-  posição  orçamental  estrutural,  pudessem  dar  a  ideia
        tivos errados aos decisores políticos no que concerne à   ilusória que o faziam, apenas pelo impacto não recorren-
        transparência,  accountability  e  sustentabilidade  das  Fi-  te  que  têm  em  melhorar  o  défice  nominal.  Assim,  por
                                                              forma a dar os incentivos corretos aos decisores políti-
         ——————————————————————                               cos, estabeleceu-se como princípio que medidas discri-
         18  Veja-se o caso da titularização de créditos fiscais em 2003, as várias operações com fundos de
          pensões privados ou a receita das concessões rodoviárias e hídricas de 2008.
         19  No  original:  “specific  occurrences  that  can  be  regarded  as  being  beyond  the  control  of  the
          government,  and  that  have  an  often  sudden  impact  on  the  revenue/expenditure  or  as-  ——————————————————————
          sets/liabilities  of  the  general  government  or  of  the  country,  that  is  temporary  by  nature  and   20  Também  não  deve  ser  usado  para  fazer  o  “smooth”  (“alisamento”)  das  ´series  temporais,
          significantly exceeds normal economic fluctuations”.   corrigindo problemas de sazonalidade e volatilidade.
   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11   12