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acontecimentos expostos. todo o seu conhecimento advinha do trabalho de escritó-
rio e não de aulas direcionadas para tal (Rodrigues, Go-
A presente contribuição apresenta-se dividida em mes e Craig, 2003, 2004).
cinco secções. Depois da introdução, a segunda secção Ainda sob o ponto de vista económico, o tesouro
efetua uma contextualização global da primeira metade público era controlado pela Casa dos Contos, a qual
do século XVIII. Na terceira secção são abordados os utilizava o método contabilístico das partidas simples no
principais acontecimentos no que diz respeito à profis- registo das suas operações. O método das partidas sim-
são de contabilista. Posteriormente, a quarta secção ples “carateriza-se por cada assento constar só de débi-
realça o contributo do Marquês de Pombal para a conta- to ou só de crédito, […] havendo a notar o caráter singu-
bilidade e assinala uma das suas principais criações, a lar e unívoco das contas” (Monteiro, 2004, pp. 53-54).
Aula do Comércio de Lisboa, fundada em 1759. Por últi-
mo, a quinta secção sistematiza as conclusões relevan- Um dos marcos importantes verificados nesta época
tes a extrair do trabalho. consistiu na fundação em Lisboa da Companhia da Fá-
brica das Sedas, em 1734, considerada a primeira gran-
No decurso do artigo, Sebastião José de Carvalho e de empresa privada portuguesa, a qual utilizava o méto-
Melo (1699-1782), secretário de Estado de D. José de do da contabilidade por partidas dobradas, particular-
1750 a 1777, aparecerá com o nome de Marquês de mente a partir de 1745 (Rodrigues, 2001; Carvalho, Ro-
Pombal ou Pombal, para facilitar a compreensibilidade drigues e Craig, 2007).
do leitor, pese embora se saiba que o título nobiliárquico
apenas foi por ele obtido em 1770. Ao nível social, notou-se nesta época um forte im-
pacto do estrangeiro no povo português. De realçar a
influência dos franceses através da criação da Gazeta
2. CONTEXTO ECONÓMICO, SOCIAL E EDUCATIVO de Lisboa em 1715, que consistia num jornal responsá-
DA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XVIII vel por transmitir ao povo português notícias oficiais na-
cionais e estrangeiras, copiando assim a moda francesa
No início da primeira metade do século XVIII, Portu- da Gazette de France (Serrão, 1982). A influência de
gal encontrava-se governado pelo rei D. João V, aclama- França também se fez sentir na forma como a nobreza
do em 1 de Janeiro de 1707. Cognominado “o Magnâni- se apresentava, nomeadamente nas suas vestes e uso
mo”, demonstrou ao longo do seu longo reinado (1707- de cabeleiras (Serrão, 1982).
1750) ser um defensor da cultura, conhecer diversos
idiomas e apreciar a literatura, a ciência e a música, em Embora não se possa considerar como um aconteci-
particular a ópera italiana. D. João V personificou os ide- mento ocorrido em Portugal, é importante realçar o con-
ais do absolutismo, conseguiu trazer para Portugal uma tributo de Gabriel de Souza Brito para a contabilidade,
enorme riqueza através do ouro do Brasil e autorizou a com a publicação em castelhano do seu livro intitulado
construção de um grande palácio em Mafra, conhecido Norte Mercantil y Crisol de Cuentas, em 1706
por Convento de Mafra, uma das obras mais icónicas do (Hernández Esteve, 1985). O autor em questão – Ga-
seu consulado (Serrão, 1982). briel de Souza Brito – era português; no entanto, no mo-
mento em que publicou o seu livro encontrava-se emi-
Esta época ficou marcada pela presença de estran- grado em Amesterdão, Países Baixos, tendo publicado o
geiros na economia portuguesa, mais concretamente manual na língua de Cervantes, como se disse, razão
nos negócios de importação e exportação do país, sen- pela qual não se considera o Norte Mercantil uma obra
do que a população tinha tendência a adquirir produtos portuguesa (Hernández Esteve, 1985).
estrangeiros (Gonçalves e Ribeiro, 2015). Os profissio-
nais que faziam a contabilidade eram essencialmente No que respeita ao ensino, a educação no país
estrangeiros, nomeadamente italianos e franceses, e apresentava-se essencialmente a cargo de instituições
notava-se uma fraca presença de portugueses a execu- religiosas, de entre as quais se destaca a Companhia de
tá-la (Guimarães, 2005). Tal facto deve-se à falta de ins- Jesus. D. João V ordenou ainda que fossem lecionadas
trução e consequente falta de conhecimento por parte aulas reais de Filosofia, Teologia e Moral no Convento
dos profissionais portugueses, uma vez que até então de Mafra (Serrão, 1982). O monarca foi também respon-

