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         sempre que se considera a realidade a estudar subjetiva   Estado de D. José I, ao ponto de o rei lhe ter confiado,
         e multifacetada (Pocinho, 2012).                     em  1756,  a  mais  importante  pasta  do  seu  gabinete:  a
                                                              Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.
            As principais fontes secundárias de informação con-
         sultadas  foram  livros,  artigos,  enciclopédias,  disserta-  Até esta data, o grande comércio internacional estava
         ções de mestrado e teses de doutoramento. Esta biblio-  em  mãos  de  estrangeiros,  em  particular  dos  ingleses,
         grafia foi compulsada tendo em vista a concretização do   sendo que o comércio do vinho do Porto não constituía
         objetivo primordial do artigo: promover uma revisão da   uma exceção, como se sabe. Desta forma, com o objeti-
         literatura que permitisse estudar a relação entre a Com-  vo de nacionalizar um setor importante para a economia
         panhia e o desenvolvimento da Contabilidade portuguesa.     portuguesa,  Pombal,  em  1756,  ajudou  a  fundar,  com
                                                              capitais privados especialmente provenientes de acionis-
            No que concerne à delimitação do objeto de estudo,   tas do norte de Portugal, uma companhia comercial mo-
         foi  selecionado  grosso  modo  um  período  de  cerca  de   nopolista: a Companhia Geral da Agricultura dos Vinhos
         100 anos, a começar no ano de fundação da empresa,   do Alto Douro. A participação de Pombal foi crucial na
         1756.  Deste  modo,  torna-se  possível  o  estudo  de  um   fundação da empresa, posto que foi co-redator dos esta-
         arco temporal caracterizado por dois sistemas políticos   tutos gerais da  Companhia  (Marcos,  1997).  A  moldura
         diferentes: o Absolutismo (antes de 1820) e o Liberalis-  normativa da sociedade – também conhecida ao tempo
         mo (depois de 1820).                                 por Companhia dos Vinhos – era constituída pelos esta-
                                                              tutos gerais fundacionais da Companhia, de 1756, e pe-
                                                              los estatutos particulares ou diretório económico para o
            3.  Os principais traços históricos da Companhia    governo interior da Companhia, de 1761 (Marcos, 1997;
                                                              Oliveira, 2013).
            A par dos reinados precedentes, a soberania de D.
         João V (1689-1750) (r. 1706-1750) ficou também marca-   A Companhia surgiu com o fundamento de assegurar
         da  por um  período  de  monarquia absoluta,  segundo  a   e propiciar, de uma maneira correlacionada, a produção
         qual todos os poderes estavam concentrados na figura   e comercialização dos vinhos do Porto e impedir a ação
         do rei.                                              dos  ingleses  nos  destinos  do  mesmo  (Sousa,  2006).
                                                              Falcon  (2008,  p.  41)  argumenta  que  a  instituição  da
            A partir de 1750, mas ainda em tempos de Absolutis-  Companhia permitiu dar resposta a uma série de adver-
         mo Real, Portugal ganha uma nova dinâmica com o rei-  sidades que necessitavam de ser contrariadas, nomea-
         nado de D. José I, sendo o mesmo cognominado de O    damente a “queda dos preços e o declínio das exporta-
         Reformador. Este monarca encontrou o país com estru-  ções, a multiplicação de formas de concorrência desleal
         turas  administrativas  desadequadas  e  ineficazes,  fruto   e  a  adulteração  de  vinhos  por  pequenos  produtores  e
         dos  últimos  anos  de  liderança  do  seu  pai,  D.  João  V   taberneiros sem escrúpulos”.
         (Duarte,  Lopes  e  Gonçalves,  2017).  Para  ultrapassar
         esta situação de bloqueio ao desenvolvimento do reino   Pese embora a circunstância de ser uma empresa de
         de Portugal, D. José I, em 1750, escolheu para o seu   capitais  privados,  a  Companhia  beneficiou  de  grandes
         Governo de três Secretários de Estado, Sebastião José   privilégios conferidos por D. José I, razão pela qual este
         de Carvalho e Melo, anos mais tarde outorgado com o   tipo de parceria público-privada ficou conhecido na histó-
         título de Marquês de Pombal (1770). Pombal entrou para   ria geral do país como companhia majestática. As três
         o primeiro Governo de D. José I empossado na pasta de   principais companhias majestáticas criadas por Pombal
         Secretário  de  Estado  dos  Negócios  Estrangeiros  e  da   no reinado de D. José I gozaram todas de enormes be-
         Guerra.                                              nesses e prerrogativas régias, as quais constavam ex-
                                                              pressamente  nos  seus  documentos  fundacionais
            Passados cinco anos da coroação do novo rei, Lis-  (Companhia  Geral  do  Grão-Pará  e  Maranhão,  1755;
         boa sofre uma catástrofe natural que deixa parcialmente   Companhia  Geral  da  Agricultura  das  Vinhas  do  Alto
         destruída a cidade: o terramoto de 1755. A forma notá-  Douro, 1756; e Companhia Geral de Pernambuco e Pa-
         vel  com  que  Pombal  lidou  com  esta  adversidade  fê-lo   raíba, 1759).
         ganhar ascendente sobre os outros dois Secretários de
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