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Lisboa que residissem no norte de Portugal e, em parti- Azevedo (1981) coloca em evidência que da Junta da
cular na cidade do Porto, teriam forçosamente de ir viver Administração da Companhia dependia, em grande par-
para a capital, uma situação que desagradava sobrema- te, a organização e funcionamento do novo estabeleci-
neira aos responsáveis da Companhia, ou seja, à sua mento de ensino, a Aula do Comércio do Porto, quer de
Junta de Administração. Nesta perspetiva, o caso mais um ponto de vista pedagógico, quer sob o prisma finan-
conhecido de um estudante nortenho a viajar para Lis- ceiro. Aqui, registe-se que a Companhia arrecadava re-
boa que a literatura contabilística assinala é o de José ceitas para o quotidiano da escola através do contributo
de Paiva Ribeiro (1741-1819) – futuro homem de negó- da décima dos lucros que se repartiam pelos acionistas
cios da Praça do Porto e acionista da Companhia –, na- (Azevedo, 1981). Note-se que era também da responsa-
tural da cidade do Porto, um dos primeiros guarda-livros bilidade da Junta da Companhia a seleção dos professo-
formados por via institucional em Portugal, em razão de res, “o que fazia com todo o escrúpulo, tratando de re-
ter sido aluno da Aula do Comércio de Lisboa no seu crutar o que de melhor havia” (Lopes, 1915, p. 41). Nes-
primeiro curso (1759-1763) (Gonçalves, 2016). te particular, foi escolhido para primeiro professor da
Aula do Comércio do Porto José Honório Guerner (1729-
Sendo a cidade Invicta a “segunda cidade onde a 1806), que deixara a Aula do Comércio de Lisboa havia
atividade comercial era mais importante e que, no entan- uma década, tendo aí praticado a docência durante nove
to, não possuía uma escola onde se ministrassem os anos (1784-1793) e aí obtido, como estudante, o diplo-
conhecimentos elementares de comércio” (Pereira, ma relativo ao terceiro curso (1767-1771) (Gonçalves,
2001, p. 277), era evidente a necessidade de instituição 2011).
de uma escola de Contabilidade e Comércio no norte do
país. Os homens de negócios nortenhos lutaram durante A Junta da Administração da Companhia correspon-
vários anos para que também no Porto existisse uma dia a um órgão colegial composto por um provedor, 12
Aula do Comércio. Neste domínio, é conhecida uma re- deputados, seis conselheiros e um secretário (este, sem
presentação (i.e., uma petição oficial) efetuada pela direito a voto) (Estatutos da Companhia, § I; Sousa,
Companhia, em 1785, a qual requeria a D. Maria I o es- 2006). O provedor e os deputados eram obrigatoriamen-
tabelecimento de uma aula pública de Comércio na cida- te cidadãos portugueses (naturais ou naturalizados),
de do Porto (Gonçalves, 2011); não obstante, apenas moradores na cidade do Porto ou acima do Douro e de-
em 1803 esta pretensão foi atendida pelo Governo. tentores de 10 ações da sociedade (Estatutos da Com-
Emergiu, assim, o Alvará de 9 de fevereiro de 1803, cujo panhia, § II).
texto instituiu, finalmente, a tão almejada Aula do Co-
mércio da cidade do Porto (Bastos, 1937; Gonçalves, Quanto a saídas profissionais, os alunos que fre-
2011). É manifesto que a Companhia sentiu desde a sua quentassem com sucesso a Aula do Comércio do Porto
génese dificuldades no recrutamento de técnicos qualifi- seriam preferidos para o exercício de funções de guar-
cados para trabalharem na contadoria e em outros de- da-livros da contadoria da Companhia. No que respeita
partamentos da empresa. a gastos, a frequência nesta instituição de ensino era
gratuita para os estudantes.
A Tabela 2 evidencia as principais características da
Aula do Comércio do Porto, cuja fundação se ficou a Durante os 34 anos da sua existência (1803-1837), a
dever, principalmente, às insistências, junto do Governo, Aula teve uma vida atormentada, tanto por causa das
da Junta da Administração da Companhia e da burgue- invasões francesas, como pelo tumulto ligado à implan-
sia mercantil portuense. tação do Liberalismo (Santos, 2006). Sucedeu-lhe, em
Tabela 2: Caracterização da Aula do Comércio do Porto (1803).
Característica Descrição
Bienal (no primeiro ano eram ensinados os princípios e as doutrinas dos contratos de seguros, de câmbio, de fretamentos, de compra e venda e de comissões
Duração do curso e plano curricular e, no segundo ano, era ensinada a escrituração por partidas dobradas, a geografia histórico-comercial e o direito mercantil prático e das nações com quem
Portugal tinha mais relações comerciais).
Condições de admissão Exame do 1.º ano de matemática e perfeito conhecimento das línguas francesa e inglesa.
Vantagens dos alunos Os alunos eram preferidos para os serviços e contadoria da Companhia.
Número de alunos 11 a 12 alunos, por ano, em média.
Fonte: Adaptado de Gonçalves (2011).

