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         tização tem por base a noção de que a informação tem as caraterís-  julgamentos e hipóteses discutíveis, que tornam contingente a infor-
         ticas  dos  bens  económicos  (Belkaoui,  1981):  é  escassa,  tem  um   mação económica facultada. Em suma, a obtenção da true and fair
         custo e é integrada nos modelos de decisão dos investidores, o que   view,  útil  aos  diferentes  utilizadores  para  a  tomada  de  decisões
         se traduz em benefícios. No entanto, esta abordagem não é isenta   económicas, pressupõe uma conceção objetiva da mesma, que, à
         de críticas, pelas dificuldades existentes em determinar qual o con-  partida é proporcionada pelo modelo do custo histórico/moeda no-
         junto de normas contabilísticas suscetíveis de proporcionar a otimi-  minal. Todavia, a contabilidade tem dois sentidos (Simon, 2000): um
         zação do sistema informativo.                        sentido funcional e um sentido de prestação de contas – to account
                                                              for. Esta dificuldade acaba por realçar, na última versão, o valor ou
         A par das bússolas positiva e económica de orientação da informa-  valores que são classificados por Ijiri (1981) como subjetivos. Este
         ção contabilística, é possível abordar a teoria contabilística através   autor considera que só os custos históricos asseguram a objetivida-
         de uma aproximação ética  - normativismo ético – que enfatiza os   de do processo de prestação de contas (accountability), em virtude
         conceitos de justiça, verdade e equidade, trilogia em que se funda-  de a informação facultada pelas demonstrações financeiras refletir
         menta o quadro conceptual do FASB. Este direciona a atuação da   consequências da contabilização das transações e acontecimentos
         administração  no  sentido  do  cumprimento  estrito  das  práticas  e   passados.  Acresce  que,  as  teorias  neoclássicas  de  valor,  funda-
         princípios  contabilísticos  geralmente  aceites,  que  conduzem,  em   mentadas na utilidade marginal de um bem, provocam uma muta-
         princípio, a uma representação verdadeira e apropriada da situação   ção importante: o valor deixa de ser uma realidade objetiva para se
         financeira e dos resultados de uma empresa. Esta abordagem real-  tornar uma noção subjetiva e contingente.
         ça as caraterísticas qualitativas da informação financeira, refletidas
         nos balanços, demonstrações de resultados e outros mapas finan-  Assim, o risco e a incerteza, bem como o próprio conceito de valor,
         ceiros  igualmente  importantes,  e  considera  a  neutralidade  como   transformam o conceito de true and fair view num pensamento inde-
         uma caraterística básica de uma contabilidade transparente, situa-  terminado, por estar totalmente subordinado aos métodos contabi-
         ção  que  também  é  acentuada  pelo  normativismo  institucional.  A   lísticos utilizados.
         dificuldade  inerente  a  esta  abordagem  reside  na  interpretação da
         verdade, que, em termos pragmáticos, é assimilada à contabilização   A abordagem da teoria da contabilidade, tendo em conta a proble-
         das transações de acordo com factos considerados como objetivos   mática fiscal, insere-se nas primeiras teorias descritivas da contabili-
         e verificáveis. Assim, o modelo contabilístico dos custos históricos   dade, que tinham subjacentes a teorização das práticas existentes e
         moeda nominal é avaliado como uma representação adequada dos   a ambição de descobrir, indutivamente, os princípios contabilísticos
         factos económicos.                                   fundamentais. Este enfoque da contabilidade é profundamente lega-
                                                              lista e direciona a disciplina unicamente para a função de registo e
         No entanto, os documentos de síntese, publicados pelas empresas,   apuramento de uma base tributável. Os autores que pesquisaram a
         são influenciados e afetados pelas escolhas dos métodos contabi-  formação  teórica  da  contabilidade,  a  partir  da  problemática  fiscal
         lísticos efetuadas pela gestão e pelos preparadores da informação   subjacente  à  tributação  do  rendimento  (Hendriksen  e  Van  Breda,
         financeira, num contexto em que a escolha das regras contabilísti-  1992), imediatamente concluíram pela existência de objetivos pro-
         cas  aplicáveis  proporciona  uma  extensa  variedade  de  situações   fundamente divergentes entre os desideratos da contabilidade e os
         possíveis e passíveis de provocar uma pluralidade de imagens ver-  fins da fiscalidade.
         dadeiras e apropriadas.
                                                              Neste âmbito, a problemática teórica da contabilidade restringe-se
         A verdade contabilística não está, assim, estritamente ligada a uma   ao reconhecimento do rendimento e à eleição dos custos suscetí-
         representação única e não distorcida da realidade. Por outro lado,   veis de serem considerados relevantes sob o ponto de vista fiscal.
         sugere-se, nesta abordagem, que a substância económica da infor-  O que está em causa, nesta versão, é a medida do rendimento de
         mação contabilística deve sobrepor-se à sua forma jurídica.   uma empresa para fins fiscais, o que é considerado irrelevante para
                                                              efeitos  de  axiomatização  da  contabilidade.  É  necessário,  porém,
         No entanto, a própria relatividade contabilística, oriunda de contex-  enfatizar esta preocupação na história do pensamento contabilísti-
         tos  jurídicos  económicos  e  sociais  singulares,  cria  contingências   co, porque desenvolveu e manteve uma prática contabilística con-
         específicas à contabilidade, e, neste sentido, o normativismo institu-  sistente, ainda que limitada a propósitos específicos.
         cional  é  necessário  pelo  facto  de  a  contabilidade  ser,  ao  mesmo
         tempo, um sistema de informação e de regras, e igualmente uma   Este enfoque da contabilidade fomentou o refinamento dos métodos
         prática social. Neste espírito, a normalização contabilística, instru-  de  contabilização  das  amortizações  dos  ativos  fixos  tangíveis  e
         mento  privilegiado  do  normativismo  institucional,  não  ambiciona   intangíveis, bem como das valorizações dos inventários, conceitos
         criar  uma  rigidez  fundamentalista  na  informação  apresentada  e   estes que foram incorporados, desde os seus primórdios, na regula-
         divulgada pela empresa. Com efeito, uma estandardização sufocan-  ção contabilística: veja-se a valorização ao custo ou mercado, dos
         te das normas suprime a liberdade de adaptação à realidade em-  dois o mais baixo. Nos Estados Unidos e em alguns países euro-
         presarial, excluindo, portanto, a possibilidade de adaptação ao con-  peus (Portugal), a perspetiva fiscal da contabilidade teve uma influ-
         ceito de imagem verdadeira e apropriada. A verdade contabilística   ência  considerável  no  desenvolvimento  da  teoria  contabilística.
         não  é  uma  verdade  aritmética  (Evraert,  2000),  contudo,  deve  ser   Infelizmente, no nosso país, ainda perdura, e centra-se sobretudo
         concebida como um processo social que regista e agrega os factos   nos conceitos contabilísticos com incidência em matérias de fiscali-
         em função dos fins que se pretendem atingir. Assim, a base conta-  dade.
         bilística, em que se fundamenta o conceito ético de imagem verda-
         deira  e  apropriada,  tem  subjacente  um  conjunto  de  estimativas,   Esta visão reducionista da contabilidade teve efeitos muito adversos
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