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A CONTABILIDADE COMO SISTEMA DE INFORMAÇÃO AO SERVIÇO DA GESTÃO
distinção não é muito clara (Horngren et al., 2006). Com efeito, a
CÉSAR FERNANDO MOREIRA COUTINHO contabilidade de custos, para além de fornecer informação para a
contabilidade de gestão e para a contabilidade financeira, “mede,
Contabilista e Auditor licenciado pelo ISCAP
Contabilista Certificado pela OCC analisa e relata a informação financeira e não financeira respeitante
ao custo de aquisição ou uso dos recursos numa organiza-
Consultor fiscal (Ex-Inspetor Tributário) ção” (Coelho, 2012, p. 20). A contabilidade de gestão tem como
Professor de Contabilidade no ISCAP
objetivo fornecer informação aos utilizadores internos das organiza-
ções, ajudando-os a tomar as melhores decisões e a melhorar a
Gerir é tomar decisões e a contabilidade tem de ser um siste- eficiência e eficácia das operações existentes (Drury, 2005).
ma de informação ao serviço da gestão.
Na contabilidade financeira, os custos e proveitos são classifi-
A contabilidade, que pode ser definida como “um sistema de cados por natureza, prevalecendo a ótica patrimonial e financeira.
recolha, classificação, interpretação e exposição de dados económi- As informações são monetárias, valorizam-se os fluxos externos,
cos,…tem procurado acompanhar a evolução operada no desenvol- coloca-se o enfoque nas relações com o exterior, é submetida a
vimento da própria sociedade ao longo dos séculos, designadamen- imperativos de ordem técnica, jurídica e fiscal, é obrigatória, utiliza a
te na satisfação de informações de carácter financeiro, determina- estrutura do SNC, baseia-se no registo histórico (regista o passado)
das pela complexidade dos negócios empresariais” (Caiado, 2015, e o apuramento do resultado é anual e global.
p. 29).
Na contabilidade de gestão, os custos e proveitos são classifi-
Atendendo ao âmbito, objetivos e destinatários da informação cados de acordo com o destino (função, produto,...), prevalecendo a
contabilística identificamos duas grandes áreas disciplinares: ótica económica e produtiva. As informações são quantitativas e
físicas, valorizam-se os fluxos internos, coloca-se o enfoque no
− Contabilidade de gestão (ou interna) visando apurar resulta- interior da organização, a sua implementação é livre e de acordo
dos não só globais mas, também, por produtos, serviços, com os objetivos da gestão e, por isso, a sua existência é facultativa
mercados, etc. utilizando um plano de contas elaborado pela empresa, apoia o
− Contabilidade financeira (ou externa), relativa à instituição planeamento (gestão previsional), o apuramento do resultado é
no seu todo. mensal e parcial (por funções, atividades, centros de responsabili-
dade…) e são analíticos.
A contabilidade de gestão “mede e transmite a informação
financeira e não financeira que ajuda os gestores a tomar decisões Sistemas contabilísticos
e a cumprir os objetivos da organização. Os gestores usam a infor-
mação da contabilidade de gestão para escolher, comunicar e im- A definição e implementação de um sistema de contabilidade
plementar a estratégia”. Em suma, a “contabilidade de gestão con- de custos deve possibilitar a resposta oportuna a diversas questões
centra-se nos relatórios internos, focaliza-se na informação futura tais como o registo, classificação e agregação dos custos fabris ou
bem como na passada” e tem como objetivo fornecer dados para o de produção (industriais) e não fabris (não industriais), a afetação
planeamento e controlo de gestão e valorizar os produtos fabrica- ou imputação dos custos aos respetivos objetos (produtos) e apoiar
dos e em curso de fabrico, ou seja, análise dos custos (gastos), i.e., a contabilidade financeira (ou externa) na valorimetria de certas
classificação, imputação e controlo de gestão. Por outro lado, a rubricas do Balanço e das Demonstrações de Resultados por Natu-
contabilidade financeira “tem o seu centro de interesse no exterior rezas e por Funções.
da empresa” (Coelho 2012, p. 24 e 25).
Em Portugal, não existe normalização no âmbito da contabili-
A contabilidade financeira torna-se insuficiente para a gestão, dade de custos, competindo à empresa a elaboração do seu plano
na medida em que é necessário aguardar pelo fim de exercício para de contabilidade, segundo o qual, adota as soluções mais adequa-
valorizar as existências (inventários) finais e proceder às diversas das para dar resposta às suas necessidades de informação. No
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regularizações para apurar o resultado líquido do exercício (do perí- caso de ser utilizada uma classe 9 – contabilidade analítica são
odo). Os custos são apurados por natureza e não da forma que criadas contas que recolham a informação necessária ao apura-
mais interessa para efeitos de gestão, ou seja, por produtos, ativida- mento do custo de produção e de cada uma das rubricas.
de ou centros de responsabilidade. As informações fornecidas são
de fraca operacionalidade no controlo e planeamento e não têm em ——————————————————————
1 A evolução terminológica da contabilidade de gestão “acompanha de algum modo o alargamen-
conta as grandezas físicas. Com efeito, a contabilidade financeira to do seu âmbito disciplinar: Contabilidade Industrial, em França e noutros países Europeus, ou
tem por objetivo a análise da situação patrimonial e a formação do Contabilidade de Custos para os anglo-saxónicos; depois Contabilidade Analítica de Exploração
em França, na sequência do Congresso internacional de contabilidade de Paris em 1948, onde
resultado. foi decidido abandonar a designação de contabilidade industrial e consagrar a sua separação da
contabilidade geral e, finalmente, Contabilidade de Gestão”. Entre nós, após o 25 de abril de
1974, passou denominar-se “contabilidade analítica” ou “Contabilidade Interna” à contabilidade
Utilizam-se, indistintamente, os termos “contabilidade de ges- analítica de exploração, entendida como uma “ferramenta da análise e do controlo dos custos
tão” e “contabilidade de custos” como expressões sinónimas mas a da empresa que procede ao agrupamento dos custos e às classificações por funções ou por
processos, com o objetivo de conduzir a análise a diversas dimensões” (Coelho, 2012, p. 17).

