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A TRANSIÇÃO DO POC PARA O SNC                                                               R
                                                                                                                E
                                                                                                                V
                                                                                               João Rodrigues    I
                                                                                         Revisor Oficial de Contas  S
                                                                                                                T
         O novo Sistema de Normalização Contabilística (SNC)  ser divulgadas no Anexo. O Anexo assenta num conceito  A
         representa um desafio acrescido para todos os interes-  de “full disclosure” mas não existe a tradição em Portugal
         sados na contabilidade.                           de se proporcionar muita informação aos stakeholders.  D
                                                                                                                E
         Desde logo, o regulador – a Comissão de Normalização  Os Revisores Oficiais de Contas (ROC) têm uma res-
         Contabilística (CNC) – que deverá proporcionar a orien-  ponsabilidade enorme no processo de transição para o  C
         tação necessária, em particular, na fase de transição. Um  SNC e no sucesso da viragem para uma melhor conta-  O
         dos problemas que tem sido apontado genericamente na  bilidade. Por um lado, o seu risco – o risco de auditoria  N
         transição para o SNC é o carácter demasiado genérico  – aumenta devido ao crescente uso de juízos de valor.
         da norma relativa à primeira adopção. Outro exemplo de  Por outro lado, o ROC desempenha um papel activo na  T
         orientação a ser proporcionada pelo regulador poderia  definição de critérios contabilísticos e nas empresas de  A
         ser, por exemplo, a indicação de critérios objectivos para  menor dimensão esse papel inclui a quantificação, o que  B
         se determinar a taxa de desconto a aplicar nas diversas  poderá levar a conflitos de interesse, uma vez que a in-  I
         situações (testes de imparidade ou actualização de acti-  formação poderá ser produzida e revista pela mesma  L
         vos e passivos não correntes). Iremos agora estar envol-  pessoa.  A actualização de conhecimentos dos ROC  I
         vidos no encerramento das contas de 2009: será que  nesta matéria está a ser feita de forma extensiva pela  D
         essas contas devem ter alguma divulgação sobre a tran-  OROC mas talvez fosse aconselhável instituir-se um  A
         sição para o SNC e os seus efeitos? Não deve a CNC  controlo da frequência às formações específicas em  D
         emitir um pronunciamento sobre o assunto ?        SNC.                                                 E
         As associações de profissionais de contabilidade devem  Por fim, os Técnicos Oficiais de Contas (TOC). Estamos  E
         procurar reforçar a formação no SNC. Os profissionais da  a falar de uma classe de dezenas de milhares de profis-
         contabilidade têm necessidade de actualizar os seus co-  sionais. Muitos de elevado mérito científico, académico  F
         nhecimentos e, por isso, precisam de formação de quali-  ou profissional. Muitos ligados a grandes organizações.
         dade. Essa formação deve passar por vários estágios:  Muitos ligados a gabinetes de contabilidade. Muitos liga-  I
         numa primeira fase terá de consistir numa formação ge-  dos a pequenas e médias empresas. É assim abusivo  N
         nérica com o objectivo de se conhecer o normativo em  efectuar qualquer generalização sobre esta nobre e la-  A
         geral e as suas implicações fiscais. Numa segunda fase,  boriosa classe. Mas, temos de reconhecer que:  N
         terá de ser ministrada formação intermédia/avançada por                                                Ç
         temas (imparidade de activos, benefícios dos emprega-  1.º - o ensino da Contabilidade em Portugal não tem  A
         dos, contratos de construção, rédito, impostos sobre lu-  sido feito da melhor forma, por várias razões que não  S
         cros, etc.). A formação terá ainda de incluir uma vertente  cabe aqui enumerar;
         sectorial: por exemplo, aspectos específicos do sector                                                 N.º
         imobiliário, da construção, da indústria farmacêutica, das  2.º - principalmente nas pequenas e médias entidades,  100
         telecomunicações, da indústria automóvel, etc. Convém  a Fiscalidade tem-se sobreposto à Contabilidade,
         não esquecer que uma das possibilidades dada aos gru-  sendo esta limitada pelas considerações fiscais;
         pos cotados e não cotados é o uso das IFRS, pelo que as
         necessidades de formação irão variar consoante as op-  3.º - a formação profissional de qualidade na área da
         ções dos grupos empresariais.                       Contabilidade é escassa;

         Para fins académicos, não haverá outra solução senão  4.º - em muitas situações, a pressão de trabalho exer-
         ensinar as International Financial Reporting Standards  cida sobre os contabilistas é muito grande, o que os
         (IFRS) e as Normas Contabilísticas e de Relato Finan-  leva a negligenciar alguns aspectos qualitativos, por  27
         ceiro (NCRF). Torna-se premente a actualização de co-  exemplo, análise da informação produzida.
         nhecimentos dos professores, uma vez que, ao contrário
         do que está ainda a acontecer neste ano lectivo, em  Os TOC deverão procurar protagonizar a mudança ne-
         2010/2011, não existirá o Plano Oficial de Contabilidade  cessária na contabilidade. Para isso, devem conhecer de-
         (POC), pelo que não resta outra alternativa aos senho-  talhadamente o novo normativo, as opções existentes, as
         res professores senão substituírem o seu velhinho mate-  particularidades do negócio da entidade, as necessida-
         rial pelo novo normativo.                         des de informação, liderando o trabalho de recolha das in-
                                                           formações, por exemplo, coordenando com os demais
         Sendo o actual modelo contabilístico caracterizado pela  departamentos da empresa e com terceiros o fluxo de in-  J
         aplicação de critérios económicos em detrimento de uma  formação necessária.
         contabilidade legalista ou fiscalista, o conhecimento do                                               a
         normativo é condição necessária mas não suficiente para  Estamos perante uma oportunidade única de promover-  n
         se passar a fazer contabilidade seguindo critérios econó-  mos a evolução qualitativa da contabilidade, guindando-  e
         micos. Para isso, terá de existir um forte conhecimento  -a a posição de destaque enquanto ferramenta de gestão.  i
         do negócio. Decisões relativas à capitalização de dis-  Não devemos desperdiçar esta oportunidade, cabendo a  r
         pêndios ou ao seu reconhecimento imediato como gas-  cada um de nós contribuir para a mudança necessária.  o
         tos, a aplicação do princípio da correlação de gastos com  Sabemos que, até aqui, a contabilidade nem sempre era  /
         rendimentos ou até do princípio da prudência, a crescente  vista como um valioso instrumento de gestão e os profis-
         utilização de estimativas, o conhecimento das práticas do  sionais muitas vezes sobrepunham, critérios fiscais aos  M
         sector, etc., implicam um forte conhecimento do negócio.   critérios económicos, preocupando-se apenas em cum-  a
                                                           prir a legislação fiscal. A mudança é assim necessária  r
         Os profissionais que analisam as contas das empresas  mas implica uma atitude de humildade, reconhecendo-  ç
         (analistas de bancos, controllers, etc., terão de tomar al-  -se a necessidade de se actualizarem conhecimentos, o  o
         guns cuidados devido ao maior uso do justo valor e de  que nem sempre é fácil, bem como o desejo de se efec-
         estimativas que poderão criar resultados contabilísticos  tuar um corte com o passado. O difícil nestes casos não  2
         sem a correspondente geração de caixa. Por outro lado,  é a obtenção de conhecimentos mas sim deixarmos de  0
         a demonstração dos resultados irá evidenciar o EBITDA  fazer aquilo que estamos acostumados a fazer. Uma úl-
         mas este indicador fundamental poderá estar afectado  tima palavra para os jovens: esta fase de transição é uma  1
         por eventos ou transacções não recorrentes que terão de  oportunidade única de se chegarem à linha da frente.   0
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