Page 29 - rcf1100_Neat
P. 29
comprometida, tanto mais quando são dependentes dos pois o sistema de trabalho e responsabilidades foram pre- R
serviços/produtos da empresa. viamente definidos na carta/contrato de compromisso. E
O governo e as agências governamentais, no exercício das É de realçar que esta carta/contrato entre o auditor e o V
suas funções, utilizam as demonstrações financeiras para cliente não evita/diminui as diferenças de expectativas I
S
avaliar a política de tributação fiscal, a alocação de recur- entre a opinião emitida pelo auditor no relatório final e o en-
sos e para melhorar a actividade de regulação do mercado. tendimento que do mesmo é percepcionado pela socie- T
O público em geral utiliza as demonstrações financeiras dade/público utilizador dessa informação, pois a carta/con- A
para avaliar o contributo de cada entidade para a eco- trato permanece no seio da relação entre o auditor e o D
nomia, através da análise dos seus clientes, fornecedo- cliente e não é normalmente do conhecimento do público. E
res, volume de facturação, número de empregados, etc.
Adicionalmente, podemos também identificar os gesto- 3-Perspectivas e estrutura conceptual das diferenças C
res/administradores das empresas como um dos grupos de expectativas O
de utentes interessados no resultado do trabalho dos au- Se por um lado as diferenças de expectativas derivam da N
ditores/revisores, pois são habitualmente os destinatários incerteza associada ao objectivo, natureza e conclusões T
e interlocutores primários da auditoria/revisão. da auditoria, alguns autores têm conseguido evidenciar A
Os gestores/administradores das empresas têm no rela- que nem sempre as diferenças são motivadas por ex- B
tório dos auditores/revisores um instrumento que com- pectativas desajustadas do público. I
L
prova ou não, a adequação dos registos contabilísticos I
ao longo do período em análise e através dos quais é 3.1-Perspectivas das diferenças de expectativas
D
comprovado o estado financeiro da organização, nas Ao longo dos anos, têm sido enumeradas diversas cau- A
suas várias dimensões. sas para a existência de diferenças de expectativas. D
Os gestores/administradores podem, em algumas situa- Tricker (1982) defende que a diferença existe em resultado E
ções, discordar das opiniões dos auditores/revisores, na da evolução que tem sido exigida aos auditores/revisores
medida em que estas opiniões podem não ser concordan- ao longo dos anos como resposta a uma sociedade cons- E
tes com a sua expectativa inicial. Caso o auditor/revisor te- tantemente em mudança e às expectativas do público.
nha sido sujeito a limitações no âmbito do seu trabalho, por Lin e Chen (2004) defendem que as diferenças decorrem F
via da não disponibilização de toda a documentação rele- da incapacidade da auditoria se adaptar às exigências I
vante que clarifique eventuais diferenças identificadas ou que lhe têm vindo a ser colocadas. N
por via da discordância quanto aos princípios contabilísti- Humphrey et al. (1992) argumentam que as diferenças re- A
cos utilizados, o seu relatório poderá conter reservas ou ên- sultam das contradições do regime auto-regulatório da N
Ç
fases, o que irá influenciar negativamente a opinião dos res- profissão de auditoria, na qual existe pouca intervenção A
tantes utilizadores da informação financeira quanto ao governamental. Os mesmos autores afirmam (p.137-161)
S
desempenho dos órgãos de gestão. que as causas para a existência desse problema são mui-
tas e variadas, enumerando os seguintes aspectos aos N.º
2.2-A importância da ISA 210 quais podem ser atribuídas as diferenças de expectativas: 100
- A própria natureza da auditoria;
A ISA 200 “Objectivos Globais do Auditor Independente
- A ignorância e expectativas pouco razoáveis da so-
e a Realização de uma Auditoria de Acordo com as Nor-
mas Internacionais de Auditoria” refere que o objectivo da ciedade;
- As crises das empresas, que originam o surgimento
auditoria de demonstrações financeiras é o de habilitar o
auditor a expressar uma opinião sobre se as demons- de novas expectativas. (Almeida: 2004)
De acordo com estes autores, o conflito surge quando se
trações financeiras estão ou não preparadas, em todos
trata de comunicar os resultados de uma auditoria a um
os aspectos materialmente relevantes, de acordo com
uma estrutura conceptual de relato financeiro identifi- lote alargado de utilizadores de informação com neces- 29
sidades variadas.
cada, ou seja, “se dão uma imagem verdadeira e apro-
priada” das operações ou “apresentam razoavelmente, É certo que as mudanças nas necessidades dos utiliza-
dores, no ambiente e contexto em que as empresas de-
em todos os aspectos materialmente relevantes”, que são
senvolvem a sua actividade e a própria evolução da pro-
expressões equivalentes.
A opinião expressa visa dar credibilidade, significado e re- fissão conduziram a algumas diferenças. No entanto, é
inequívoco que a causa das diferenças reside nos seus
levância às demonstrações financeiras, com a ressalva
das eventuais reservas ou ênfases aí mencionadas. actores principais, que são os auditores/revisores e os uti- J
lizadores da informação.
No entanto, as normas prevêem que entre o auditor/re-
Por um lado, é legítimo referir que os auditores falharam a
visor e o auditado, sejam formalmente acordados o âm- n
bito e a natureza do trabalho, de forma a clarificar a in- na capacidade de lidar e reagir aos novos assuntos de- e
correntes das mudanças do ambiente em que as em-
tervenção do auditor/revisor e a prevenir eventuais i
diferenças de expectativas quanto ao trabalho a realizar. presas operam. Por outro lado, mantém-se um desco- r
nhecimento do trabalho que é desenvolvido pelo auditor
Para diminuir as diferenças de expectativas, o auditor e o
por parte dos utilizadores da informação financeira.
o cliente devem acordar por escrito sobre os termos do /
trabalho a desenvolver, conforme previsto na ISA 210 M
“Acordar os Termos dos Trabalhos de Auditoria”, de- 3.2-Estrutura conceptual das diferenças de expectativas a
vendo a carta/contrato ser enviada pelo auditor e assi- A literatura existente mostra-nos que as diferenças de ex- r
3
nada pelo cliente antes do início do trabalho de campo. pectativas em auditoria são compostas por várias com- ç
Deve ser reduzido a escrito tudo o que for acordado de ma- ponentes. o
neira clara para evitar diferenças de expectativas no final O Canadian Institute of Chartered Accountants (CICA,
do trabalho de auditoria, aquando da emissão do relatório. 1988) identificou três componentes principais que moti- 2
Se no âmbito desta carta/contrato estiverem claramente de- vavam a diferença de expectativas, nomeadamente: 0
finidos os termos do contrato e eventuais restrições, o (1) Expectativas desajustadas dos utilizadores da in- 1
risco de ocorrerem eventuais divergências será mínimo, formação; 0

