Page 33 - rcf1100_Neat
P. 33

CRISE ECONÓMICA INTERNACIONAL E                                                            R
                                                                                                                E
              VULNERABILIDADES DAS PME PORTUGUESAS                                                              V
                                                                                                                 I
                                                                                                                S
                                                             António Castro, Bruno Anjos, Sandra Esteves e Teresa Magalhães  T
                                                                                   Mestrandos em Auditoria no ISCAL  A
         1. Introdução                                     estes créditos, que dispersaram, juntamente com títulos  D
         A nível mundial, e designadamente no âmbito da feno-  sobre outros activos e que transaccionaram com outras  E
         menologia macroeconómica, os últimos anos têm sido vi-  instituições financeiras, um pouco por todo o mundo.
         vidos num clima de turbulência e desconfiança, num  Houve uma maior procura no mercado imobiliário, indu-  C
         contexto de deflagração e robustecimento da inicialmente  zida quer pela referida baixa das taxas de juro, quer pela  O
         chamada CRISE FINANCEIRA, cuja identificação de   facilidade de obtenção de crédito, o que terá levado a um  N
         causas não é consensual, embora seja reconhecido que  crescimento da inflação.                         T
         o seu “ponto de ebulição” está associado ao desmoro-  Para a combater, em 2005 houve uma inversão da ten-  A
                                                                                                                B
         namento da concessão de crédito hipotecário de alto  dência da prática das taxas de juro, verificando-se uma
         risco nos Estados Unidos da América (EUA). A partir da-  subida. Naturalmente, o resultado imediato foi o aumento  I
                                                                                                                L
         quele momento, o contágio foi amplo e crescente. Na ver-  das prestações dos empréstimos, levando, mais tarde, a  I
         dade, não decorreram muitos meses até que àquela  uma diminuição da procura no sector imobiliário. As fa-
                                                                                                                D
         crise financeira, repercutida um pouco por todo o mundo,  mílias que tinham contraído créditos hipotecários de ele-  A
         afluísse um mal-estar económico e social de caracterís-  vado risco de incumprimento (subprime) começaram a  D
         ticas igualmente globais e imprevisíveis, quanto à sua ex-  não cumprir com as suas obrigações perante os bancos;  E
         tensão e profundidade, havendo, só agora, sinais de  os títulos sobre esses créditos perderam rapidamente va-
         uma possível melhoria dessa situação, como parece in-  lor, deixando de ser negociáveis. Todo o mercado finan-  E
         dicar o anúncio de fim da recessão, a partir do terceiro tri-  ceiro repercutiu, de imediato, esta escalada de descon-
         mestre de 2009, pela Comissão Europeia.           fiança na valorização dos seus produtos, daí resultando  F
         Considerando que cerca de 99,9% das empresas em   uma real crise de liquidez, que impeliu os reguladores  I
         Portugal são micro, pequenas ou médias (PME), proce-  (Reserva Federal Americana e Banco Central Europeu,  N
         demos ao estudo destas entidades, de modo a avaliar as  sobretudo) a injecções concertadas de avultadas tran-  A
                                                                                                                N
         suas características mais comuns e as suas principais  ches de capital, a par da sistemática redução das taxas
                                                                                                                Ç
         vulnerabilidades.                                 de juro que tutelam.                                 A
         Tentámos, por um lado, “isolar” as causas que estão na                                                 S
         origem daquela crise económica internacional e, por ou-  2.2 Consequências globais
         tro, conhecer os seus efeitos na economia mundial; por  Este efeito dominó não atingiu apenas os bancos e ins-  N.º
         sua vez, e tendo em conta as dificuldades específicas da  tituições financeiras que directamente trabalhavam com  100
         economia portuguesa, procurámos enquadrar as PME  subprime, mas o mercado financeiro internacional como
         portuguesas face à crise económica actual, apontando  um todo. Uma das características singulares desta crise
         medidas que poderão ser implementadas com o intuito  financeira é o facto de não ter tido origem num factor ex-
         de minimizar danos, promover a recuperação e comba-  terno (como um choque petrolífero, por exemplo), mas
         ter factores de risco.                            emergido internamente, pela falência do próprio sector fi-
                                                           nanceiro norte-americano.
         2. Da crise financeira à crise económica internacional   Tendo em conta este facto, são colocados em causa
         2.1 Génese                                        desde logo as autoridades centrais de regulação, os ges-  33
         A crise financeira internacional, ou crise do  subprime  tores das instituições financeiras e até os próprios orga-
         como ficou conhecida, evidenciou-se inicialmente pelo  nismos governamentais cujas incumbências não parecem
         crash registado nos mercados de capitais, tendo tido a  ter surtido o necessário efeito de moderação e estabili-
         sua origem no mercado norte-americano e instantanea-  zação. De facto, não só os reguladores (que não tiveram
         mente ”contagiado” a Europa e os mercados asiáticos.   a capacidade de prever a insustentável inflação dos acti-
         O debate a que temos assistido na procura das respec-  vos), mas também os gestores (pela prática de políticas
         tivas origens, bem como no sentido de antever as reper-  de gestão, quer financeira, quer do risco, agressivas e in-
                                                                                                                 J
         cussões expectáveis, quer nos mercados de capitais,  suportáveis, crendo na capacidade de auto-regulação
         agora mais estabilizados, quer na denominada economia  dos mercados), os especuladores (pela assunção cega de  a
                                                                                                                n
         real, isto é, a expressão prática dos comportamentos  risco excessivo, endividando-se para além das suas ca-
         com incidência directa na vida quotidiana, tem levan-  pacidades razoáveis), os bancos centrais (por terem pos-  e
                                                                                                                 i
         tado muitas questões, mais do que respostas persuasi-  sibilitado e mantido taxas de juro muito baixas, por um pe-
                                                                                                                 r
         vas e esclarecedoras. Todavia, parece ser de aceitação  ríodo de tempo bastante dilatado, sendo conhecido o
         generalizada o facto de, em 2001, o Presidente da Re-  resultado pernicioso que originaram, considerando a falta  o
                                                                                                                /
         serva Federal Americana, Alan Greenspan, ter adoptado  de base de sustentação dos activos transaccionados) e  M
         políticas de taxas de juro mais baixas, levando a banca  ainda as próprias famílias (por “ambição desmedida” e/ou
                                                                                                                a
         a iniciar a expansão do crédito hipotecário e estimulando  desconhecimento das consequências) alimentaram o fa-
                                                                                                                 r
         o consumo no mercado imobiliário.                 cilitismo de uma ilusória construção financeira.      ç
         Com o alargamento da concessão de crédito a clientes  As consequências foram a falência de várias instituições
                                                                                                                o
         com maior exposição ao risco de incumprimento, em  de crédito e a instalação de uma crise económica que le-
         função dos mais modestos rendimentos, face aos en-  vou a outras tantas falências na designada economia
                                                                                                                2
         cargos financeiros assumidos, sobressaem os chamados  real, com especial repercussão nos mercados financeiro
                                                                                                                0
         créditos subprime. Os bancos, por seu lado, para ga-  e imobiliário, mas atingindo de forma indiferenciada todos  1
         rantirem o valor das hipotecas, emitiram títulos sobre  os sectores de actividade numa escala global, incluindo
                                                                                                                0
   28   29   30   31   32   33   34   35   36   37   38