Page 34 - rcf1100_Neat
P. 34
R factores comerciais conexos que unem e tornam os mer- e com vocação natural para encarar os seus mercados
E cados interdependentes. potenciais muito para além das fronteiras do país. A ex-
V Considerando ultrapassada a onda de crispação regis- pectativa que se coloca nesta nova concepção e abor-
I tada em 2008 e 2009, não se espera, todavia, que em dagem de gestão alimenta a esperança da revitalização
S 2010 seja notória a recuperação económica e social, até das PME, quer no seio da economia nacional, quer con-
T porque as medidas adoptadas pelos bancos centrais e siderando o domínio europeu, onde, naturalmente os pa-
A
Estados não foram suficientes para estancar, designa- drões de concorrência, mas também o mercado, assu-
damente, a subida das taxas de desemprego. mem uma dimensão perfeitamente diversa da nacional.
D
E Entretanto, e porque os casos enunciados ainda são ex-
2.3 O caso português cepção, poder-se-á discorrer que as consequências ad-
C Os défices estruturais de competitividade, alicerçados venientes da presente situação de abrandamento eco-
O numa reduzida produtividade, nomeadamente por via da nómico são significativamente mais prejudiciais quando o
N baixa formação da população activa, em paralelo com país depende do exterior, as empresas dependem da
T uma globalização agressiva, crescentemente dinâmica e banca (impõe-se uma resolução diária de problemas de
A complexa, têm vindo a dificultar fortemente o desempenho tesouraria) e há uma continuada atitude de aversão ao
B da economia nacional. Na verdade, se o modelo econó- risco por parte dos empresários.
I mico português, tipicamente baseado nas indústrias tra- Importa então enquadrar as PME, considerar as suas ca-
L dicionais de calçado, têxteis ou cerâmica assentes em re- racterísticas e reflectir sobre o impacto expectável que so-
I
D gimes de mão-de-obra intensiva, se encontra esgotado, a frerão com a passagem desta crise.
A sua “substituição” pela criação de clusters tecnológicos, Desde o segundo trimestre de 2008, tem sido visível o
D mais vocacionados para a especialização profissional, abrandamento expressivo e disseminado da actividade
E não tem sido suficiente para compensar falências, deslo- nas economias industrializadas, o mesmo sucedendo
calizações e o desemprego crescente, que pode também nos designados mercados emergentes, que têm funcio-
E justificar-se pelo lógico desfasamento temporal entre o nado como importantes impulsionadores do crescimento
comportamento dos ciclos económicos e as inerentes económico global, razão por que se esperava daquelas
F consequências ao nível do mercado de trabalho. uma intervenção eventualmente mais activa nesta crise.
I O crescimento de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em Contudo, a diminuição da procura também nestes mer-
N 2008, que representara já relevante desaceleração face cados, associada às limitações impostas aos critérios de
A aos 1,9% de 2007, deteriorou-se ainda mais em 2009, política económica de curto prazo, sugere um cenário de
N não sendo expectável que, no corrente ano, as medidas crescimento lento da actividade nos próximos tempos.
Ç
A colocadas em prática surtirão efeitos significativos. Sendo certo que o comportamento das PME é determi-
S Em Portugal, as pequenas e médias empresas (PME) re- nante na definição do ambiente económico e social de um
presentam 99,92% do tecido empresarial e, destas, país, em Portugal esta questão assume maior relevo, de-
N.º 95,41% são micro empresas. Segundo um estudo do corrente da dimensão média das empresas e do seu grau
100 Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas (IAP- de adaptabilidade se situarem abaixo da média europeia.
MEI), de Fevereiro de 2008, elas foram responsáveis por Outra causa de fragilização das nossas PME decorre, ne-
mais de dois terços do total do emprego privado e mais cessariamente, dos efeitos sofridos pelo sistema finan-
de metade do volume de negócios total. ceiro nacional que, indirectamente, afectaram as mais de-
De uma forma geral, caracterizam-se por ser pequenas uni- pendentes de crédito bancário. Neste contexto, a
dades com gestão geracional familiar, aversão ao investi- materialização da crise de confiança associada à instabi-
mento e ao risco e forte dependência de financiamento da lidade nos mercados interbancários expressa-se na expo-
34 banca, caracterização esta que é manifestamente indicia- sição ao risco de contraparte; nos modelos actuais de
dora de maior vulnerabilidade a situações como a que ora
avaliação de risco do negócio; na dificuldade de aceder a
abordamos de crise económica e financeira.
perada da actividade. Restaurar o capital de confiança no
No que concerne ao seu enquadramento, importa consi- liquidez nos mercados internacionais; e na evolução es-
derar as iniciativas que se têm evidenciado, materiali- sistema financeiro tem constituído um dos maiores desa-
zando a preocupação política e reconhecendo a sua im- fios da indústria financeira e da eficácia das medidas de po-
portância na dinamização do emprego e da produtividade. lítica económico-financeira adoptadas pelo Governo.
É disso exemplo a Carta Europeia das Pequenas Em- As iniciativas de suficiência questionável que têm sido to-
presas, assinada pelos Chefes de Estado e de governo madas no sentido da reposição da estabilização do fun-
J
da União Europeia (UE) na sequência do Conselho Eu- cionamento dos mercados, quer pelo próprio sector ban-
a
ropeu extraordinário de Santa Maria da Feira, ocorrido em cário através da cedência de fundos ao mercado,
n
2000. O compromisso político de apoio ao sector em do- aumentando montantes, facilitando o acesso, prolon-
e
mínios prioritários foi um passo importante no reconheci- gando os prazos, quer pelas autoridades supervisoras,
i
mento da sua relevância. através de maior exigência e rigor de informação, têm re-
r Presentemente, a coexistência das PME “tradicionais” e velado incapacidade em dirimir, por esta via, as dificul-
o de outras “franchisadas” de marcas internacionais tem dades e constrangimentos.
/
M vindo a alterar o paradigma que surge da evolução natu- Destacamos, no entanto, os seguintes factos da econo-
a ral e da globalização da sociedade da informação que, mia nacional que têm permitido atenuar os efeitos desta
r com cada vez maior premência, coloca em confronto pa- turbulência:
ç drões marcadamente conservadores de gestão e cultura • ausência de práticas, no mercado de crédito à habita-
o empresariais, com novos conceitos de gestão tecnoló- ção, semelhantes às que estiveram subjacentes ao
gica, inovação e empreendedorismo, que marcadamente modelo do subprime norte-americano;
2 qualificam a nova vaga de empresários, provenientes de • crescimento económico fraco mas relativamente di-
0 iniciativas de investigação e desenvolvimento (I&D) aca- versificado do ponto de vista sectorial, minorando o
1 démico, ou da exploração de nichos cirúrgicos de opor- risco de uma dependência excessiva de um desem-
0 tunidade, assentes igualmente em inovação tecnológica penho sectorial específico;

