Page 23 - rcf1100_Neat
P. 23
CONTABILIDADE E TERMINOLOGIAS EM R
E
V
MUDANÇA S I
T
Rogério Fernandes Ferreira A
Professor Catedrático Jubilado
D
E
Começa-se por acentuar que as antigas escolas de es- tabilidade passou a aparecer menos (aliás, antes, o C
tudos ditos especializados ou superiores de Contabili- termo que se utilizava, era o da Escrituração (Mercantil). O
1
dade se denominavam de escolas de Comércio . Mudanças terminológicas são de sempre, mas, agora a N
T
Observa-se igualmente que nomes e designações, por globalização e a maior evolução havida na ciência e nas A
vezes de séculos, acabam mudando, pois tornam-se no tecnologias têm feito aparecer mais termos. B
tempo anacrónicos. Quem, nestas áreas, não se lem- Acontece que a terminologia actual está a tornar-se I
brará de em antiga literatura aparecer, em vez de co- menos expressiva. Preferiu-se, por razões justificadas à L
mércio e comerciante, negócio e negociante e antes época do Código da Contribuição Industrial, a expressão I
tráfico e traficante. “técnico de contas”. Os profissionais que desempenham D
Hoje, até a palavra comerciante se mostra com sentido essa actividade passaram a ser, legalmente, designados A
D
pejorativo. E dadas pessoas aparecem designadas de por “técnicos oficiais de contas”. Esta expressão estará E
negociantes em conotação com a ideia de pouco escru- longe de abandonar-se. Assumiu, até, mais relevância
pulosas, que actuam de modos menos correctos, que com a recente transformação da CTOC (Câmara dos E
nas relações procuram ficar com parte demasiada, não Técnicos Oficiais de Contas) em OTOC (Ordem dos Téc-
assumindo posição justa, antes buscando lesar os legí- nicos Oficiais de Contas). Não obstante, acentua-se que F
timos interesses e direitos de outros. na época actual seria de considerar mais adequada a I
A palavra comércio, mesmo no seu sentido correcto e designação de “contabilista”, em vez da terminologia, N
A
2
tradicional, também vai perdendo rigor. A actividade pro- hoje legal, de TOC (Técnico Oficial de Contas) . N
fissional de comerciante era a de quem compra para re- Nos cursos onde se ensina a Contabilidade, outras dis- Ç
venda. Se comprasse para venda por atacado dir-se-ia ciplinas igualmente se ministram, nomeadamente as de- A
grossista, se adquirisse para venda a retalho dir-se-ia re- signadas de Gestão e Administração. Há subdivisões S
talhista. Hoje, há grandes empresas com numerosos es- desta (maior) área de conhecimento, em que a Contabi-
tabelecimentos e a qualificação que aparece é entre lidade poderia integrar-se bem. Aliás, hoje a Contabili- N.º
grandes, médias e pequenas (e micro) empresas. Deixa- dade e a Gestão aparecem complementadas por muitas 100
-se de salientar o tipo de actividade, que se vai mos- outras disciplinas – Direito (Civil, de Empresa, de Fisca-
trando muitas vezes com natureza híbrida. lidade, Laboral, Comunitário), Cálculo Matemático e Fi-
De há alguns tempos passou por cá a falar-se do co- nanceiro, Sociologia, Psicologia, Ética. E os diplomados
mércio bancário, de indústria hoteleira, seguradora, de que, por vezes, se dedicam mais a essas especializa-
transportes, etc.. Mas melhor seria continuar a confinar ções, e menos a outras, apontam como sua profissão es-
o que é comércio e o que é indústria (acresce que a de- pecialidades que lhes parecem apelativas, mais
signação “serviços” veio a aparecer ao lado das de co- enquadráveis na sua actividade específica ou mais re- 23
mércio e de indústria). gular. Aparece assim auditor ou revisor, fiscalista, ges-
As pessoas deveriam compenetrar-se, pensar mais no tor, analista financeiro.
rigor da terminologia em escolha. São, por exemplo, de- A terminar estas despretensiosas considerações, quer
ploráveis muitos termos que com as NIC (Normas Inter- acentuar-se que intelectuais presunçosos, fora das rea-
nacionais de Contabilidade) e com o nosso SNC lidades, entendem há muito, como forma de ofender ou-
(Sistema de Normalização Contabilística) se passaram tros, chamar-lhes contabilistas, querendo assim insinuar
a utilizar em matérias contabilísticas. No século XIX, o que só sabem fazer contas. Como se este saber fosse
J
Código Comercial (de Ferreira Borges, de 1833 e o de prejudicial. Aliás, igual desprezo passou a economistas.
a
Veiga Beirão, de 1888) regulavam e conceituavam co- Acusam-nos invocando “economicismo”, forma detrac-
n
mércio, agricultura, artesanato, mas as palavras conta- tiva do económico. e
bilidade e indústria ainda não apareciam. E Código O poeta Fernando Pessoa deixou escrito que “grande é i
regulador da tributação das empresas intitulava-se de a poesia, a bondade e as danças e mais do que isto só r
contribuição industrial. Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças” (e não o
Hoje, notam-se tendências para falar mais em Direito da tinha biblioteca). O nosso poeta fingia. Sobre contabili- /
Empresa e menos de Direito Comercial. E a palavra Con- dade, gestão e economia deixou-nos sábios legados. M
a
r
1 O distinto professor Esteban Hernández Esteve, em comentário a livro de J. da Cunha Guimarães “A Profissão, as Associações e as Revistas de Contabilidade em Por- ç
tugal”, sublinha que também em Espanha as designações que antes se utilizavam não eram a de contabilista e, sim, de perito mercantil (1857) e os estudos intitula-
vam-se de Comércio. As Escolas de Comércio vieram a integrar-se na Universidade (1977). o
2 A expressão “oficiais”, nas fases de lançamento foi útil apoio, agora terá menos sentido. Hoje até pode usar-se, sem pruridos ou negações de antes, a expressão “con-
tabilista”. Aliás, no futuro, a expressão “contabilista” pode transfigurar-se e deixar de usar-se, como aconteceu a escrituração, guarda-livros, escriturário. Importa obser- 2
var que as escolas superiores onde a contabilidade hoje se ensina são também escolas de ensino de administração ou gestão pelo que quem nelas realiza os seus estudos 0
não é só perito em contabilidade mas também em outras áreas da gestão. A sua actividade concreta pode centrar-se mais numa das áreas e menos noutras, ou em todas. 1
Uns optarão por serem generalistas, outros por especialistas e outros, nas suas práticas profissionais, exercerão actividades de ligação, de fronteira, de coordenação
(excerto de outro artigo: “Comentários às NIC”, publicado na Revista TOC, Janeiro de 2010, edição especial). 0

