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de deslocação que o caminho-de-ferro e os melhora-  dos do século vai predominando na actividade comercial  R
         mentos da rede viária proporcionam. 7             consolida o seu estatuto de influência pela afirmação  E
         A partir da segunda metade deste século a forte mobili-  crescente do capital mercantil, trunfo – e triunfo político da  V
         dade dos seus habitantes juntamente com uma popula-  burguesia em 1834 – que faz reforçar o comércio fixo  I
                                                                                                                S
         ção pendular e flutuante oriunda dos distritos mais próxi-  como o produto de uma nova época. Auxiliada pela acti-
         mos e que se sentem atraídos pela cidade, sempre na  vidade financeira o Porto Oitocentista é uma cidade co-  T
                                                                                                                A
         eterna esperança de uma vida melhor, é um cenário que  mercialmente heterogénea, caracteristicamente pautada
         se repete. Além das comunidades inglesa, alemã e bra-  por uma estrutura mista, onde o comércio fixo, a feira e o
                                                                                                                D
         sileiros retornados, particular interesse merece a comu-  mercado partilham a procura afirmando-se como resposta  E
         nidade estrangeira radicada na invicta, nomeadamente a  a novas solicitações de uma economia em franca trans-
         comunidade galega que representa 60% dos estrangei-  formação. Heterogénea nos cenários e nos actores, de-  C
         ros. “O Porto é para estas terras como que um Brasil che-  vemos inserir o negociante tradicional do Porto num largo  O
         gado. De lá vêm criados e criadas, aprendizes de ofício,  espectro que vai desde o pequeno logista de retalho ao  N
         assim como caixeiros a tentar a carreira mercantil e for-  comerciante de grosso trato, especializado em vinho e  T
         mar a grande maioria da classe comercial” De ora em  produtos coloniais, em ferragens e panos, trabalhando ao  A
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         diante, vemos na população que preenche a cidade, a  mesmo tempo em comissões e representações, susci-  I
         presença temporária de muitos que procuram no Porto,  tando e promovendo o tráfico de importação-exportação,
                                                                                                                L
         o porto de embarque para a emigração.             descendo eventual e conjunturalmente à produção in-   I
         Se Lisboa era acusada de ter e deter o poder político,  dustrial organizada.                           D
         exercendo continuamente uma gravitação económica,                                                      A
         cabia à cidade do Porto esse papel aglutinador ao norte  2. CIDADE COMERCIAL: MONTRA DE UM MERCADO     D
         do Mondego, recorrendo às capacidades naturais das  DE TRABALHO                                        E
         províncias transmontana e duriense. À Regeneração se
         prende o início de uma rivalidade regional/provinciana,  “A casa onde estava a loja em que meu pai se ajustara  E
         cada uma das cidades - e das elites - procurando impor-  era no gosto em que ainda hoje existem muitas no Porto.
         -se à outra, rivalizando na capacidade empreendedora  Alta e esguia, tendo só, por serventia, uma única porta, a  F
                                                                                                                 I
         que ambas apostavam acreditar.                    da loja. Vendia-se ali de tudo; e, à noite, descia para  N
         Das reformas económicas operadas com a Revolução  baixo a patroa, que arregaçada até aos cotovelos, se en-
                                                                                                                A
         Liberal, um conjunto de medidas, condizentes com a nova  costava ao balcão, entremetendo-se nas conversas do  N
         ordem política e económica do Reino, surgem para revi-  marido com os fregueses, e, por vezes, desmentindo-o,  Ç
         gorar a actividade comercial: assistimos à publicação de  especialmente quando a conversa versava acerca das vi-  A
         leis tendentes a animar o comércio interno; à abolição das  zinhas, de que ela, apesar de ninguém saber como, sabia  S
         almotaçarias e de outras práticas antigas; intenta-se a re-  tudo.” 9
         forma dos pesos e medidas; sai a Lei sobre a moeda de                                                  N.º
         ouro e prata; a nova pauta das alfândegas são sinais cla-  2.1. NASCIDA PARA O COMÉRCIO               100
         ros de mudança. O comércio interno passa desde então  Deambular pela vida comercial portuense durante o séc.
         a ser beneficiado com a abolição de todas as antigas  XIX será, porventura, um percurso enriquecedor perante
         práticas e abusos, e de todos os privilégios da nobreza e  o dinamismo económico criado e que gravita em torno das
         do clero, em prol da liberdade do trabalho que o Código  transacções comerciais dando vida a uma urbe que tra-
         de Ferreira Borges procura regulamentar.          balha a um ritmo diferente e de características muito pró-
         Durante a década de 1850 houve uma reforma dos direi-  prias. A própria cidade, estaleiro económico e montra de
         tos aduaneiros que reduziu os direitos de importação, es-  um mercado de trabalho, configura-nos os verdadeiros tra-
         pecialmente os que incidiam sobre a importação de ce-  ços identificadores dos seus agentes comerciais, alma  7
         reais. Embora longe do completo livre-câmbio, o país  viva da dinâmica urbana e cúmplices de um cenário cul-
         viveria até 1889 sem impostos aduaneiros elevados, es-  tural e social que prevalecerá por muitas décadas. Os ci-
         pecialmente no que respeita aos bens agrícolas.   dadãos do Porto revelaram sempre disposição para a
         Por outro lado, o regime liberal não permitia uma inter-  vida comercial. O esmero e às vezes luxo com que abrem
         venção directa do Estado na actividade comercial. A sua  ao público seus estabelecimentos, são uma prova da sua
         função limitava-se a regulamentar os actos comerciais, es-  predilecção pela mercancia como tendência ancestral.
         timulando a livre circulação dos produtos, dentro e fora do  Quando os Jesuítas fundam, na cidade portuense, o seu  J
         país, cabendo-lhe, igualmente, a obrigação de criar um en-  primeiro colégio, os negociantes opuseram-se, porque  a
         quadramento legal e normativo que regulasse o comércio  não queriam que os Marçanos e Caixeiros perdessem o  n
         e que permitisse a sua organização individual e colectiva,  tempo nas aulas que os Jesuítas criavam. Precisavam  e
         o que está na base, em 1833, do primeiro Código Co-  destes para o trabalho do balcão e não para o estudo do  i
         mercial, de José Ferreira Borges, que vigoraria até 1888.  latim que lhes era desnecessário.            r
         Ao Estado, estava reservado o papel de dotar o país de  Como cascatas engalanadas, as ruas de maior dina-  o
         infra-estruturas que facilitassem o maior escoamento e cir-  mismo comercial procuravam, ao longo do ano, embele-  /
         culação dos produtos agrícolas e industriais.     zar as frontarias das lojas com os inúmeros artigos de que  M
         No entanto e na análise das mutações dos circuitos e es-  faziam negócio. Esse antigo costume, que de certo modo  a
         paços comerciais do tecido urbano portuense, a história  proporcionava um aspecto bizarro aos arruamentos locais,  r
         comercial de finais do século XIX é já sobretudo a histó-  deve-se ao facto, bem patente, das lojas não possuírem,  ç
         ria da afirmação do comércio fixo e da sucessiva margi-  como agora, as respectivas montras. Eram constituídas só  o
         nalização do comércio não fixo, afastado para áreas cada  por portas – duas e três por norma, mas também as ha-
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         vez mais distantes do centro económico, que se vai im-  via com seis e sete – estreitas e fundo sombrio, forradas  2
         por como núcleo fortemente estruturante da cidade e de  a chapa de ferro e providas de um sem número de ferro-  0
         uma vasta área envolvente.                        lhos, tranquetas e fechaduras. Como não tinham lugar  1
         A burguesia de pequena e média dimensão que em mea-  para mostruários, expunham os artigos no passeio e ainda  0
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