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R da figura de serviçal-caixeiro ascende a um estatuto pro- ao início do aprendiz e/ou da entrada na fábrica. 38
E fissional, social e económico que, mais adiante procura- Por outro lado, não será de refutar, em face da legislação
V remos evidenciar, vendo nele o Caixeiro e o Guarda-livros da época, o desconhecimento por parte dos aprendizes
I fiel aos negócios do patrão. Ser empregado comercial e e o receio dos patrões em empregar e albergar rapazes
S poder aspirar um dia vir a ser comerciante, constituía am- com idade inferior à estabelecida na lei. Se, tal como hoje,
T bição de muitos e representava, para a generalidade, há um conhecido fosso entre as disposições legais e o
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uma profissão de prestígio, socialmente qualificada. En- cumprimento das mesmas, - estabelecendo-se o trabalho
D tre muitos, o exemplo de Arnaldo José Rodrigues que em infantil – também não podemos de modo algum ignorá-
E 1900 entra como Marçano para os Armazéns do Anjo, las. A própria exposição pública – dentro e fora da loja –
com 14 anos de idade vai ser o grande responsável pela a que o Marçano e o Caixeiro estavam sujeitos, seria por
C expansão dos Armazéns. demais, um risco evidente que o patrão não pretenderia
O correr, com o natural desagrado de ter incómodos com a
N “Natural de Castro Vicente, concelho de Mogadouro, justiça, mau agouro para a freguesia. Mais lógico será de
T Arnaldo Rodrigues era originário de uma casa de la- admitir que sendo tradicional a família lançar o pequenote
A vradores das margens do Sabor, onde nascera a 30 entre os seus 10 e 16 anos de idade, assistíssemos por
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B de Janeiro de 1885. A casa familiar, de lavradores força das circunstâncias legais, a uma selecção e recru-
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L abastados, conheceu o efeito destruidor da filoxera, tamento, cuidada e apertada, maioritariamente limitado e
I a conhecida moléstia das vinhas que ali dizimou pra- circunscrito aos filhos dos parentes próximos, ou clientela
D ticamente toda a produção do género. Ficou a casa amiga e de confiança que, para dar uma arte e ocupação
A a sobreviver, no entanto, do azeite e das amêndoas aos filhos, na fase de aprendizagem, possibilitasse, para
D ali produzidas para o mercado, bem como dos vários salvaguarda das partes interessadas – pais e patrão – ad-
E campos de cereal. É nestas circunstâncias, de hori- mitir, para as autoridades e restante freguesia – albergar
zonte turvo, que Arnaldo se vê compelido a largar a temporariamente um parente que “veio da terra.”
E família e a partir para a cidade do Porto, onde a casa
da tia Políbia, moradora na Ribeira, lhe garantia alo- Subserviente e fiel dentro de portas, alcoviteiro na praça
F jamento, exemplo da importância das redes de pa- e desenrascado na loja, o Caixeiro legou-nos uma ima-
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N rentesco nas migrações e no apoio inicial para ‘arru- gem cujo janotismo caixeiral serviu, durante o século
A mação’. E arranja então um lugar de empregado de XIX, de caricatura mundana a um tipo de classe urbana
N balcão nos Armazéns do Anjo. que, domingo a domingo, não perdia a oportunidade de
Ç Arnaldo segue o percurso tradicional dos caixeiros ofuscar os transeuntes pela exuberância dos seus trajes.
A mais afortunados. Anos a fio a fazer a tarimba do bal- Tem pois, a nossa literatura portuguesa, reservado ao
S cão, até que em 1916 lhe foi dada sociedade, sur- Caixeiro janotista múltiplas presenças na sociedade do
gindo por detrás da designação comercial, Castro & século XIX. Entre outros, Eça de Queirós, Sousa Viterbo
N.º Arnaldo Rodrigues, em reconhecimento da dinâmica e Camilo de Castelo Branco apresentam-no da seguinte
100 que já então assegurava ao estabelecimento.” 35 forma: “... Para se apresentar com ‘chic’, comprou, num
armazém de fato feito, um paletó de pano azulado com
Se do mundo rural chegava considerável fornada de can- gola de veludo, que lhe aconselhou um caixeiro de ar pro-
didatos a aprendiz, que partindo da terra com ou sem fundamente infeliz.” 40
qualquer profissão determinada e desaguava, com a A Sousa Viterbo, não passou despercebida a figura do
ajuda “de forma integrada, apoiada nas redes da solida- Caixeiro da sua época, todo à ribalta da peraltice, quando
riedade tradicional de forma a penetrar nos estreitos cir- em maré de passeio dominical: “... chapéu alto, luvas
10 cuitos económicos dos ofícios, do caixeirato urbano ou amarelas, sapato de polimento, cabelo crescido, un-
tuoso, com risca ao meio.” Da mesma forma o irónico
dos serviços braçais e conseguir atingir o limiar da so-
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brevivência” 36 na sua grande maioria nas cidades de Camilo questiona-se:“- Que é um Caixeiro sem uma luva
Porto ou Lisboa, na procura de trabalho e melhores con- amarela?” Já Henrique Almeida ao tirar-lhe o traço no
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dições de vida, a periferia contribuía igualmente com ano de 1875 como posição de Caixeiro, cargo a que in-
enorme caudal de moços que, à procura da fortuna que vestira a possibilidade de lhe ser permitido ter a gra-
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então se dizia facilmente a classe caixeiral adquirir no vata pendurada ao pescoço, comenta: “e que bem lhe
Brasil, encontram na cidade, o estaleiro e a oficina que fica aquele pedaço de pano de cor garrida a escorrer pela
J melhor preparação dá para outros voos. “Eu vou para o tábua do peito abaixo, sobre a camisa de linho.” 44
a Porto, e lá hei-de ver se alguém me toma para caixeiro; Prova-nos a documentação que o Caixeiro começa a
n eu tendo meios vou para Lisboa e aí procuro uns primos constituir um tipo único de estatuto sócio-profissional, in-
e nossos...” 37 dependentemente da sua localização geográfica. Esta
i No entanto, quando as redes de solidariedade não se es- concepção bastante estereotipada do modo de vestir e
r tabeleciam ou o pobre rapaz se aventurava a descer à ci- trajar do Caixeiro, merece um estudo sério e profundo.
o dade na procura da imediata resposta à sua sobrevivên- O que explica esta forma – dita parola e provinciana – de
/ cia, várias vezes, caía nas ancestrais redes de vadiagem vestir? Onde se encontra o ridículo deste janotismo cai-
M e mendicidade, engrossando o caudal dos desprotegidos xeiral? Não será a fusão da velha e arcaica vestimenta
a e desfavorecidos das ruas do século XIX. Exposta que es- em confronto com novas modas, novas soluções? Será
r tava a sua débil condição de velho estranho, o novo es- vaidade? Precoce novo-riquismo ou proto-brasileirismo?
ç paço urbano ora os absorvia num recrutamento domés- Porquê um corte radical com os costumes das suas ori-
o tico determinado por regras caseiras ora os rejeitava, gens? Teria sido uma forma de afirmação versus sujei-
recolocando-os nas ruas da desgraça. O Porto do início ção? A necessidade suprema de uma nova e totalmente
2 dos finais do século XIX convive com uma realidade e fe- diferente identidade? Uma ruptura com as origens ou
0 nómeno adolescente onde a vadiagem e mendicidade mera repugnância? Ou será que a resposta se encontra
1 está estritamente localizada entre os 10 e 14 anos de na nobre actividade comercial. Bastava ser-se empre-
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idade, intervalo etário maioritariamente correspondente gado comercial para parecer-se dono do comércio?

