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R       ao lado das entradas, consoante a natureza desses mes-  rantes. “Ao visitante, quando chega ao Porto, depara-se
       E       mos artigos.                                      uma paisagem marcada por uma intensa actividade co-
       V       Quando a reduzida área do interior da loja comercial, ha-  mercial que se espraia um pouco por todo o lado.” 12
        I      bitualmente localizada no rés-do-chão, o não permitia e  Júlio Dinis ao retratar a sua Praça Comercial na Rua dos
                                               11
                                                                          13
        S      as entradas e passeios se encontrassem superlotados ou  Ingleses, sumaria-nos através de um excelente estudo fi-
       T       impossibilitados de servir de mostruário nos dias de mau  sionómico, o movimentado mundo da vida comercial. Não
       A
               tempo, a rotina impunha a correria dos Marçanos e Cai-  o mundo das trocas, das compras e das vendas onde se
       D       xeiros que, à frente das ordens do patrão, e na ânsia in-  discute o preço e se regateia a mercadoria. Mas um
       E       sofrida de tudo mostrar ao freguês, transferir para cima do  mundo apenas falado por poucos, visto por alguns e es-
               balcão a existência da casa quase em peso. E se, algo  cutado pela maioria que pacientemente ordenada, ora se
       C       corria mal, caía o Carmo e a Trindade numa esperada  aproxima tranquila ora se afasta nervosa de uns e outros
       O       tempestade de um patrão menos paciente e na espe-  grupos, trazendo daqui e levando além alguns nacos in-
       N       rança de comovido que ficou o freguês, com pena do coi-  teressantes das boas e más novas dos negócios e das fa-
       T       tado do Marçano, poder fazer qualquer venda.      lências. Numa simbiose orquestral de movimentos, gestos
       A                                                         e acções, o negócio sai à rua e aqui faz doutrina.
       B                                                         Directores de bancos, de companhias ou outras institui-
        I
       L                                                         ções comerciais “homens de aspecto grave, de movi-
        I                                                        mentos pausados, de palavras medidas e espremidas”;
       D                                                         accionistas; negociantes “sempre inquietos pelo futuro
       A                                                         dos seus capitais”; os negociantes que passeando “com
       D                                                         ar de quem está confiado em si... que não administram
       E                                                         capitais alheios, mas que dispõem de grandes capitais
                                                                 próprios”; os Marçanos, os Caixeiros, os Cobradores e
       E                                                         ainda os Despachantes “aqueles, enfim, sobre quem mais
                                                                 pesada se exerce a carga da vida do comércio e que me-
        F                                                        nos proventos auferem dela”; os corretores e agentes de
        I
       N                                                         casas estrangeiras em que “há nas suas cortesias ras-
       A                                                         gadas alguma coisa de artificial, que não ilude ninguém”;
       N                                                         os Guarda-Livros que “gozam já de certas franquias e pri-
       Ç                                                         vilégios entre os da sua classe”; e os empregados da al-
       A                                                         fândega, os carrejões, os moços de escritório que dia a
        S                                                        dia, ilustravam a praça comercial do Porto e a quem “a ci-
                                                                 dade deve-lhes mais do que tantos patrões lhes ficaram
       N.º                                                       a dever em horas de estafa não remunerada.” 14
       100                                                       De forma gradual, o espaço urbano arranja-se comercial-
                                                                 mente. É nomeadamente na Baixa Portuense que para os
                                                                 períodos (1882-1910) encontramos o polo residente das ac-
                                                                 tividades comerciais com o aumento de estabelecimentos.
               Fig. 1 – A Loja e o passeio… misturam-se
                                                                 2.2. DE MARÇANO A CAIXEIRO...
       8                                                         “Moço de fretes, levava à cabeça ou ao ombro as merca-
                                                                 dorias; animal de tiro, levava a fazenda aos empurrões do
                                                                 tórax contra a cabeceira dum carrinho de duas rodas – um
                                                                 veículo de fazer tísicos - [...] moço alcoviteiro, recovava de
                                                                 cá para lá e de lá para cá as cartas de namoro, moço
                                                                 criado fazia todo ou quase todo o serviço doméstico, lim-
                                                                 pava a cozinha, acendia o lume para o pequeno almoço,
                                                                 varria o estabelecimento, e, quando os meninos eram ta-
        J                                                        maninos, adormecia-os a embalos rítmicos de berço.” 15
        a
        n                                                        A personagem do Caixeiro, intimamente ligado ao co-
        e                                                        mércio fixo local foi, principalmente desde o século XVIII,
        i                                                        figura típica reveladora de uma infância adiada e ado-
        r                                                        lescência subservientemente aproveitada pelo misto de
        o                                                        uma esperteza saloia de timbre provinciano com a ino-
        /                                                        cente ingenuidade de quem também, na cidade querer
       M                                                         ser dono e senhor de um desenrascado domínio público
        a                                                        – a praça, o mercado, a freguesia – e o privado – o bal-
        r                                                        cão, a loja, o passeio e a limpeza.
        ç      Fig. 2 – O Balcão… mundo de todos os negócios     O Marçano assume, ao longo da sociedade de Oitocen-
        o                                                        tos o ingrato papel do rapaz que, fiel ao patrão e do
               A literatura portuense mergulha-nos na azáfama do rebo-  agrado da patroa, é pau para toda a colher e moço para
        2      liço das suas gentes, dos seus regateios e dos seus pre-  todo o serviço, o protótipo de “gente de trabalho duro e
                                                                              16
        0      gões. Da Ribeira à Praça Nova, dos mercados às lojas, o  mal recompensado, gente que desde o alvorecer do dia
        1      Porto tabela os preços pelo ritmo dinâmico dos seus fei-  até ao mais penetrado e recuado da noite exercia o ár-
        0
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