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A ordem de trabalhos é a seguinte: após esta introdução  cundário nas capitais de distrito, inaugurando-se em  R
        passamos em revista as razões que levaram à decadência  1839 o Liceu Nacional de Lisboa e, em 1840, o Liceu  E
        da Aula de Comércio, em 1844; seguidamente enunciamos  Nacional do Porto.                               V
        e comentamos a organização dos estudos comerciais leva-                                                  I
                                                                                                                S
        dos a cabo na Escola de Comércio, de 1844 a 1869; e, a  Contudo, terá sido a desregulamentação proporcionada  T
        terminar, diremos também algumas palavras acerca das  pela Carta de Lei de 7 de Abril de 1838, o principal factor a
                                                                                                                A
        conclusões e das limitações do estudo, bem como de al-  espoletar o declínio da academia lisboeta. De facto, num
        gumas sugestões e sementes de trabalho que ao longo da  cenário condicionado por ideias liberais, esta peça jurídica  D
        exposição fomos cultivando.                        desobrigava da aprovação na Aula de Comércio o exercí-  E
                                                           cio da profissão de Guarda-Livros. A actividade contabilís-
                                                           tica começou assim a absorver pessoas vindas de outras  C
                                                                                                                O
        2. ACERCA DE UMA BREVE RETROSPECTIVA DAS           áreas, muitas delas aí mal sucedidas, porque na prática a  N
           RAZÕES DO OCASO DA AULA DE COMÉRCIO LIS-        partir de 1838 quem quisesse ser Guarda-Livros podia sê-
                                                                                                                T
           BOETA – O CONTEXTO POLÍTICO E SOCIAL            -lo. Sob esta circunstância, a Carta de Lei de 7 de Abril de  A
                                                           1838 surtiu um efeito diametralmente oposto ao da Carta  B
        Em termos médios, no período lectivo de 1839 a 1844,  de Lei de 30 de Agosto de 1770, promulgada ainda num  I
        foram sessenta e três os alunos matriculados na Aula de  contexto josefino-pombalino. A literatura reconhece este  L
        Comércio de Lisboa (Santana, 1985: p. 28). Ora, num es-  instituto jurídico como sendo a primeira tentativa registada  I
                                                                                                                D
        tabelecimento público e gratuito de ensino de Contabilidade  em  Portugal  para  a  regulamentação  da  profissão  de  A
        que chegou a registar, nos primeiros onze cursos (de 1759  Guarda-Livros (neste sentido, ver, por todos, Rodrigues e
                                                                                                                D
        a 1798), médias de aproximadamente 200 alunos inscritos  Gomes, 2002), por via do provimento de numerosos car-  E
        por curso, bem se vê que com o advento do Liberalismo a  gos de interesse público e privado subordinados em exclu-
        Aula perdeu protagonismo e alguma da sua relevância so-  sivo aos antigos praticantes da Aula de Comércio.  E
        cial.
                                                           Com  uma  longevidade  de  oitenta  e  cinco  anos  (1759-  F
                                                                                                                 I
        Subsídios para uma contextualização e explicação da re-  1844), foi a Aula de Comércio rebaixada ao nível do ensino  N
        dução do número de matrículas são-nos dados por Cor-  liceal pelo decreto orgânico da instrução pública de 20 de
                                                                                                                A
        reia  (1931),  Portela  (1968),  Rodrigues  e  Craig  (2004),  Setembro de 1844, obra de Costa Cabral. Aboliu-se, assim,  N
        Rodrigues et al. (2003, 2004) e Gonçalves (2011). Se-  a autonomia que até aí gozara esta Academia. Para tanto,  Ç
        guindo de perto a argumentação dos autores enunciados,  foi anexada ao Liceu Nacional de Lisboa, sob a designação  A
        são diversas as possíveis causas para esta diminuição, de  de Escola de Comércio ou Secção Comercial, muito em-  S
        entre as quais se ponderam:                        bora continuasse a ser frequentemente referida por Aula
                                                                                                                N.º
                                                           de Comércio, como clarifica Carqueja (2002), mas “per-  106
                                                           dendo muito do seu prestígio por ser pouco frequentada”
          1. a existência de uma correlativa Aula de Comércio no  (Gonçalves, 1960: p. 13).
            Porto (1803-1837) na Academia Real da Marinha e
            Comércio da Cidade do Porto, com o Curso de Co-  Esta questão coloca-nos perante uma outra que é a de
            mércio a ter continuação na Academia Politécnica do  saber quais as razões motivadoras da mudança de para-
            Porto, após o ano de 1837;                     digma que terá provocado, em última instância, um retro-
                                                           cesso  no  ensino  da  Contabilidade  em  Portugal.  Uma
          2. a diminuição dos níveis de actividade mercantil moti-  resposta cabal encontra-se em Rodrigues (2009: p. 124),
            vados pela abertura dos portos brasileiros a navios e  posto que a autora defende que a mudança tem uma ex-  13
            frotas estrangeiras em 1808 e pela independência do  plicação política, em entrevista exemplarmente conduzida
            Brasil em 1822, com naturais impactos nos rendimen-  por Pinto (2009). Mas melhor será, porém, que lhe dêmos
            tos do organismo financiador da Aula – a Junta de Co-  a palavra: “[…] porque passamos de um regime corporati-
            mércio (Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas  vista e mercantilista para um regime fisiocrata. O mercanti-
            e Navegação, conforme nova designação adoptada  lista  acredita  na  força  do  comércio  e  das  transacções
            em 1788);                                      comerciais e é preciso pessoas que apoiem este regime.
                                                           Com a queda do Marquês de Pombal e com o liberalismo  J
                                                                                                                u
          3. a extinção da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fá-  económico o Estado deixa de ter um papel interventor e  l
            bricas e Navegação, pelo decreto de 30 de Junho de  logo o ensino público perde relevância. Quando termina o  h
            1834, “com o fundamento de ser onerosa à Fazenda e  mercantilismo e se inicia a fisiocracia, começa-se a pensar  o
            incompatível com a forma de governo estabelecido na  que o desenvolvimento económico deve ser impulsionado
                                                                                                                /
            Carta Constitucional da Monarquia” (Portela, 1968: p.  pela agricultura, [e assim] deixa de fazer sentido ter aque-
            793);                                          las pessoas que são especialistas a fazer negócios a nível  S
                                                           internacional, por exemplo. Tudo isto fez com que a profis-  e
                                                                                                                 t
          4. as invasões francesas (1807-1811), a revolução liberal  são perdesse muita relevância na altura” (Rodrigues, 2009:
                                                                                                                 e
            de 1820, a instabilidade vivida nos catorze anos que se  pp. 124-125).                              m
            seguiram à revolução liberal (1820-1834) e a guerra                                                 b
            civil portuguesa entre miguelistas absolutistas e pe-  O aspecto nuclear da perda da importância da Aula de Co-  r
                                                                                                                o
            dristas liberais (1828-1834); e                mércio relaciona-se assim com o surgimento, no primeiro
                                                           terço do século XIX, das doutrinas políticas de liberalismo  2
          5. a criação, em 1836, por decreto de 17 de Dezembro de  económico baseadas na ideologia francesa laissez faire et  0
            Passos Manuel, de Liceus como escolas de ensino se-  laissez passer que, por um lado, reclamavam um interven-  1
                                                                                                                 1
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