Page 22 - rcf126_Neat
P. 22

22





         ções do TTIP. Segundo ele, as negociações foram precedidas de   cas  internacionais.  Se  a  criação  da  CEE  nos  anos  50  do  século
         um estudo sobre o impacto económico e social do acordo, o qual   findo provocou uma verdadeira revolução no panorama das trocas
         revelou ganhos consideráveis em matéria de rendimento e empre-  comerciais  globais  e  deu  à  Europa  o  estatuto  de  maior  potência
         go. Referiu também que nunca houve secretismo nas negociações,   comercial do mundo e o epíteto de “Fortaleza”, a criação do me-
         que sempre existiu uma conferência de imprensa no fim de cada   gabloco comercial agora em negociação voltará a “revolucionar” o
         ronda negocial, que há um grupo de acompanhamento das negocia-  universo das trocas. Irá acontecer criação e desvio de comércio e
         ções junto da CE que congrega representantes da sociedade civil e   poderão ocorrer reacções por parte de outras potências económi-
         que há encontros abertos com stakeholders, incluindo sindicatos e   cas, que venham a ser afectadas pelas novas preferências comerci-
         ONG (Diário Económico, 5 Abril, 2014). Ainda segundo Vital Morei-  ais.
         ra, é infundado o receio quanto à ameaça às regras europeias de   Na teoria do comércio internacional diz-se que há criação de
         segurança alimentar (exº. carne com hormonas), assim como quan-  comércio quando, na sequência da formação de uma união adua-
         to às regras ambientais e de protecção de dados e sobre a eventual   neira  entre  um  grupo  de  países,  se  observa  uma  deslocalização
         arbitragem internacional de litígios sobre investimento estrangeiro.
                                                              geográfica  da  produção  de  uma  fonte  com  custos  mais  elevados
            Por seu turno, segundo a comissária do comércio da UE, Cecí-  para uma fonte com custos mais reduzidos. O desvio de comércio
         lia Malmstrom, o acordo é imensamente importante, com potencial   observa-se quando há uma deslocalização geográfica da produção
         para criar empregos, crescimento e standards e as negociações são   de uma fonte com custos mais reduzidos para uma fonte com cus-
         as  mais  transparentes  e  abertas  que  alguma  vez  a  CE  conduziu   tos mais elevados.
         (News, 2014).
                                                                  A nível das instituições internacionais é previsível que o TTIP
            Mas foi só em 7 de Janeiro de 2015 que a CE tornou público,   elimine a maior parte dos obstáculos inúteis ao comércio e dê azo a
         pela primeira vez, as propostas que apresentou nas negociações,   que as regras mundiais sobre o comércio sejam mais próximas dos
         com o intuito de reflectir transparência sobre tais negociações, refe-  valores ocidentais. Isto, numa altura em que se prolonga a estagna-
         rindo que tal representava um marco na política comercial comunitá-  ção das negociações no âmbito da Organização Mundial do Comér-
         ria. E que tal política de divulgação iria prosseguir com a publicação   cio.
         de um “Reader’s Guide” para esclarecer o significado de cada texto   Numa  escala  menor,  mas  não  menos  importante,  o  TTIP  irá
         que fosse publicado (News, 2015).
                                                              produzir efeitos de larga amplitude nas negociações entre a União
            No decurso da 8ª Ronda de Negociações (Fevereiro 2015), a   Europeia e o Mercosul com vista à criação de uma área de comér-
         comissária do comércio da UE reafirmou que o TTIP vai poder reco-  cio livre, negociações que se “arrastam” há mais de duas décadas,
         locar a União Europeia como potência mundial e trazer prosperida-  com avanços e recuos e interrupções prolongadas. Ao intensifica-
         de aos europeus, sem que estes percam qualidade nos produtos   rem-se as trocas entre a UE e os EUA, o interesse por um acordo
         alimentares e condições sanitárias, bem como no ambiente. E que   UE-Mercosul ficará bastante reduzido, cujo atraso na sua conclusão
         os  restantes  padrões  de  qualidade  não  ficarão  diminuídos   resulta, essencialmente, das vantagens comparativas do Brasil no
         (EC,2015).                                           sector agrícola.

            Apesar de, a partir de certa altura, a UE ter desenvolvido inten-  Ainda naquela região, o Mercosul poderá vir a criar uma zona
         sa campanha no sentido de tornar transparente o decorrer das ne-  económica com a ALBA, com a Aliança do Pacífico e com a Petro-
         gociações, é verificável que aquela organização evitou durante lar-  caraíbas,  o  que  significa  que  a  generalidade  dos  países  latino-
         go tempo que questões importantes do que estava em jogo fossem   americanos se unirão para a facilitação do comércio.
         conhecidas do cidadão. Com isso, e sem o prever, a UE acabou por   Por  seu  turno,  a  China,  que  poderá  ser  afectada  pelo  TTIP,
         provocar um efeito saudável, que foi o exercício da cidadania em   pode vir a replicar pela via do estabelecimento de novos acordos
         muitos cidadãos europeus, receosos de verem prejudicados ou até   comerciais  com  outros  parceiros,  de  que  os  acordos  com  vários
         anulados alguns dos seus direitos mais importantes. Num documen-  países africanos poder ser o princípio. Acresce o facto da China ter
         to publicado em Março de 2015, a UE refere-se aos 10 mitos que   estado na origem da criação do Banco Asiático de Investimento em
         existem sobre o TTIP. Mas tal documento só veio reforçar a ideia da   Infraestruturas, ao qual aderiram mais de uma trintena de países,
         existência de secretismo durante muitos meses e volta  a mostrar   alguns dos quais europeus.
         alguma  falta  de  atenção  pelos  direitos  do  cidadão  europeu  (Top
         Myths, 2015).                                            No  caso  específico  dos  EUA  importa  referir  que,  ao  mesmo
                                                              tempo que negoceiam com a UE, estabelecem conversações com
                                                              11 países do Pacífico ( China, não incluída) com vista a um acordo
             3.2. Efeito do acordo no mundo e nas partes contratantes   que permita mudar as regras mundiais relativas à propriedade inte-
                                                              lectual, direitos sobre medicamentos, serviços de internet, liberda-

                                                              des civis e patentes biológicas.
            Antes de se abordar os efeitos  que o futuro acordo terá nas
         duas economias, importa referir que, pelas razões acima expostas,   No respeitante às duas economias envolvidas no TTIP refira-se
         se está perante uma alteração sem paralelo nas relações económi-  que  elas  já  se  encontram  bastante  ligadas  entre  si,  conforme  se
   17   18   19   20   21   22   23   24   25   26   27