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“Nossas próprias instituições só podem ser As Ciências da Administração dependem do "estudo
compreendidas e apreciadas por aqueles que das estruturas e dos processos e das ideias sobre o go-
conhecem outros sistemas de governo e os prin- verno, como existiram ou foram desejados no passado e
cipais fatos da história institucional geral. Atra- o lugar real e ideal dos funcionários públicos nela"
vés da utilização de um método histórico e com- (Raadschelders, 1998). A história administrativa, no sen-
parativo aprofundado, além disso, pode-se obter tido mais amplo, relaciona-se com o desenvolvimento da
uma clarificação geral dos pontos de vista.” 2 inter-relação entre o governo e a sociedade.
A tese de Woodrow Wilson ficou patente no livro o W. Kickert (2005) efectuou um inquérito sobre as
Governo do Congresso. O livro The State teve várias diferenças e especificidades das várias abordagens na-
impressões, e também novas edições. O capítulo 11 cionais para o estudo da gestão pública nos países da
sobre o Governo dos Estados Unidos (126 páginas) foi Europa Continental, que ocorreu no início de 2004, atra-
publicado separadamente para fins de ensino médio e vés do envio de um questionário a um grande número
universitário, e foi reimpresso. The State teve tradução de colegas de diversos países: Suécia, Noruega, Dina-
em japonês (1895), em francês (1902), bem como em marca, Bélgica, Alemanha, Suíça, França, Itália e Espa-
espanhol (1904) e em russo, em italiano e em alemão nha.
(entre 1905 e 1922). Este constitui o primeiro estudo
comparativo acerca do governo. Vernon L. Parrington O inquérito revelou abordagens distintas no estudo
(1930), na obra Os Começos do Realismo Crítico na da Gestão Pública nos diferentes países, principalmente
América, classificou-o como um dos três mais importan- devido às tradições históricas particulares do Estado e
tes livros de ciência política da época. da Administração. Nesse artigo, o autor apresenta três
exemplos de países europeus, a França, da Alemanha e
Woodrow Wilson descreveu os quatro estágios do da Itália, os quais têm tradições peculiares e específicas,
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desenvolvimento constitucional: com forte tradição legalista comum. Esta tradição tem as
suas raízes na história do século XIX na formação do
“1. Governo como mestre, pessoas como Estado, particularmente no estabelecimento do
sujeitos; 2. As autoridades governamentais mos- "Rechtsstaat" liberal na Europa continental. O estabele-
tram-se favoráveis pela virtude da força, mas cimento de democracias constitucionais liberais também
pela autoridade da virtude e da capacidade de marcou o começo da burocracia moderna. Nos tempos
liderar; 3. Ambos os tipos de liderança falham e da monarquia absoluta, os funcionários do Estado eram
o governo está face a face com os líderes do os servos pessoais do rei. Mesmo na época da monar-
povo; Este é um período de profunda agitação e quia constitucional no início do século XIX, os reis conti-
cheio de sinais de mudança; 4. Os líderes do nuavam a considerar os ministros e os funcionários co-
povo tornam-se o governo.” mo seus servos pessoais. Com a vinda da democracia
constitucional liberal essa situação mudou. O rei não
A sociedade e o governo identificam-se com a no- estava mais no controle pessoal do Estado e da Admi-
ção do estado orgânico como uma função da sociedade nistração. O Parlamento tornou-se a mais alta autorida-
organizada, fundamentada tanto no pensamento alemão de do Estado (embora os monarcas constitucionais do
como no inglês. Comparando o contemporâneo com a início do século XIX continuassem a ser altamente auto-
situação histórica, pelo que observou: cráticos e muitas vezes desprezados). Os ministros dei-
xaram de ser servos pessoais do rei, mas eram respon-
"A sociedade não é o organismo que uma sáveis perante o parlamento. Os funcionários mudaram
vez foi, - os seus membros são mais livres, mai- de servos pessoais do rei para servos do estado impes-
or oportunidade …mas o seu carácter orgânico soal. Os novos funcionários estatais deixaram de ser
é novamente proeminente." membros de famílias abastadas que haviam produzido
empregos geração após geração. Os funcionários públi-
cos tornaram-se profissionais educados e treinados.
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2 Wilson (1887). “The discipline of public administration”. In: Shafritz, J.M. & Hyde, A.C. eds.
Classics of Public Administration (3rs ed). Pacific Grove (California), Books/Cole Publishing Uma característica da administração francesa é a
Company, pp. 11-24.

