Page 24 - rcf1105_Neat
P. 24
R A INTEGRAÇÃO DE PORTUGAL NA
E
V
I UNIÃO EUROPEIA: BREVE BALANÇO
S
T
A
Messias de Sá Pinto
D Contabilista
E Doutor em Ciências Económicas
C
O Poder é a capacidade de levar os outros a fazerem o que queremos e a impedi-los de fazerem
N
T o que não queremos.
A
B Robert Kagam, 2008
I
L
I 1. A Europa no mundo Com fraco poder económico e insignificante poder militar, a
D Europa não vai continuar a merecer a atenção das novas
A A Europa está numa encruzilhada e sem objectivos claros, potências, as quais já lhe estão a disputar os lugares nas ins-
D desfeita que está a ambição estratégica prevista na Agenda tituições internacionais, designadamente no Fundo Mone-
E
2000, aprovada pelo Conselho Europeu em Lisboa, em tário Internacional (FMI), no Banco Mundial (BM) e na
Março de 2000. Daí dizer-se que a perda de influência da Organização Mundial do Comércio (OMC).
E
Europa no mundo é uma realidade nos dias de hoje.
F Para Raposo (2010), o facto central da nossa Era é a as-
I A Europa tem-se preocupado em demasia com a defesa dos censão das potências asiáticas, podendo considerar-se que
N direitos humanos, parecendo recusar-se a ver que a regra a Europa é passado e a Ásia é futuro, o que está a levar a
A que sustenta a actual ordem internacional não é a subordi- uma autêntica revolução intelectual na forma de pensar a
N nação da soberania aos direitos humanos, mas sim a su- política mundial.
Ç bordinação ao poder político que decorre dos poderes
A económico e militar. Segundo Kagan (2008), os europeus estão apreensivos e
S têm motivos para tal. Nos anos 90, os países da União Eu-
A elite europeia parece não ter percebido que já não tem le- ropeia (UE) apostaram fortemente numa ordem mundial
N.º gitimidade para falar em nome do resto do mundo e que, se baseada no geoeconómico sobre o geopolítico, na qual a
105
teimar com essa postura, serão poucos ou nenhuns a dar- sua enorme e produtiva economia iria competir, em igual-
-lhe ouvidos. dade com os EUA e com a China. Consequentemente, a
modernização das suas forças armadas foi secundarizada e
A ordem internacional não repousa apenas em ideias e ins- os orçamentos militares reduzidos, no pressuposto de que
tituições. É moldada pelas configurações do poder e o poder era a força suave que estava em vigor e não a força bruta. Ao
encontra-se noutras paragens que não na Europa. mesmo tempo convenceram-se de que a Europa iria ser um
modelo para o mundo e seria forte num mundo configurado
Também por via disso, os intelectuais ocidentais já não ao estilo europeu. Mas tal não aconteceu.
24 podem escrever livros a partir da permissa de que a demo- Para Oliveira (2005), a realidade é que, nem o euro, nem a
cracia é o único regime que garante legitimidade política em
todo o mundo, porque há outros regimes que vingaram e se integração do mercado único conseguiram fazer da Europa
tornaram poderosos e são aceites pelos respectivos povos. um motor da economia mundial, papel que lhe foi muitas
vezes atribuído nos anos 70.
Este parece ser o século americano-asiático, no qual a África
ainda poderá representar um papel relevante, perdendo a Ainda de acordo com Raposo (2010), se a Europa não pen-
Europa qualquer centralidade mundial se continuar sem pro- sar em termos realistas, a próxima ordem internacional será
jectos que galvanizem as suas populações, que se encon- ditada pelos EUA e pelos gigantes asiáticos.
tram amedrontadas.
A
b
r Actualmente a Europa representa 22% da economia 1.1 As relações transatlânticas
i mundial, podendo baixar para 12% em 2050. Por outro lado,
l em termos demográficos, a Europa representa cerca de 12% Apesar das ligações históricas à Europa, os EUA têm como
da população mundial contra os 22% de 1945, o que pre- prioridade as democracias transpacíficas, com especial re-
/
nuncia que apenas possua 6% em 2050. Com efeito, está a levo para o Japão e Índia, com as quais conta para limitar
J assistir-se a cada vez menos nascimentos na Europa e ao as aspirações da China.
u engrossar da população idosa, mercê do aumento significa- O seu auxílio à Europa na Segunda Guerra Mundial e o
n tivo da esperança de vida. Tal situação poderá vir a determi- Plano Marshal que se lhe seguiu não criaram um sentimento
h nar a reformulação do modelo social europeu, com correspondente por parte dos europeus, muitos dos quais
o
consequências no respectivo nível de vida. Por seu turno, ainda olham para os americanos com muita desconfiança .
2 tanto os Estados Unidos da América( EUA), como os países
0 asiáticos e africanos continuarão a registar aumentos signi- Contudo, foi a inesperada natureza imperialista da ex-URSS
1 ficativos na sua população jovem. que forçou os EUA a rever a sua posição tradicional e a per-
1

