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explicitado por Carlin e Finch (2007, p.9) quando referi- dos fatores financeiros e económicos (Carvalho, 2015;
ram que “a aplicação do regime de testes de imparidade Giner e Pardo, 2015; Hassine e Jilani, 2017; Poll, 2004;
do goodwill sob as IRFS resulta num nevoeiro densa- Van de Poel et al., 2008). A ambiguidade implícita no
mente congelado de assunções”. processo de reconhecimento de perdas por imparidade
sobre o goodwill proporciona ao órgão de gestão mani-
No estudo realizado por Camodeca e Almici (2012) pular as demonstrações financeiras de modo a assegu-
acerca da realização dos testes de imparidade do go- rar a confiança dos investidores, conforme já havia sido
odwill nos vinte maiores grupos financeiros europeus defendido por Poll (2004). Assim, a possibilidade de ma-
entre 2006 e 2011, concluiu-se que a introdução do con- nipulação dos resultados abordada anteriormente têm
ceito de justo valor nas demonstrações financeiras, e como reflexo o não cumprimento dos principais objetivos
que está na génese dos testes de imparidade ao go- que motivaram o aparecimento da IFRS 3 e da NCRF14,
odwill, constitui um problema, sendo que são as entida- e que visavam a qualidade e a fiabilidade das demons-
des de maior dimensão aquelas que cumprem da melhor trações financeiras.
forma as normas contabilísticas. Relativamente às divul-
gações exigidas pelas normas contabilísticas acerca do 2.3. Síntese
valor recuperável do goodwill, nomeadamente taxa de
desconto, taxa de crescimento e valor terminal, os auto- Da revisão da literatura efetuada aos modelos de
res concluíram que a generalidade das empresas que mensuração subsequente do goodwill, é possível verifi-
constituíam a amostra não cumprem as disposições exi- car que nenhum dos modelos existentes reúne consen-
gidas nas normas a este nível. so junto dos autores que se debruçaram sobre esta ma-
téria.
As dificuldades de aplicação prática dos testes de
imparidade do goodwill, já anteriormente mencionadas, Figura 1: Goodwill - síntese da evolução da literatura
na opinião de Carvalho (2015) e Qasim et. al. (2013) • Têm uma vida útil limitada mas impossível de determinar,
(1993)
ficam a dever-se à definição, delimitação e ao cálculo do Johnson e Tearney razão pela qual o seu período de amortização deve ser
valor recuperável das UGC associadas ao goodwill. Fa- delimitado.
ce às debilidades existentes, os responsáveis pela pre- (2003) • É um ativo construído por elementos diversificados, pelo
paração da informação financeira fazem uso das mes- Rodrigues que não devem ser incluídos na mesma rúbrica e sujeitos
a amortização pelo mesmo período.
mas, manipulando os resultados através do reconheci- • A determinação do período de amortização por parte do
(2003)
mento das imparidades pretendidas (Francis et al., Carvalho órgão de gestão põe em causa a qualidade da informação
1996). financeira.
(2007) • A aplicação do regime de testes de imparidade resulta
Na avaliação efetuada por Van de Poel et al. (2008) Carlin e Finch num nevoeiro densamente congelado de assunções.
acerca da utilização da IFRS 3 como ferramenta mani- • Testes de imparidade são de difícil aplicação, atendendo
(2013)
puladora dos resultados das empresas de quinze Esta- Qasim, Haddad e Abughazaleh à dificuldade que existe no cálculo do valor recuperável
das UGC.
dos membros da UE nos anos de 2005 e 2006, permitiu
constatar que os gestores não aplicam de igual forma os (2015) • A aplicação dos testes de imparidade foram drásticos
procedimentos previstos na norma, nomeadamente no Carvalho para a posição financeira da empresa
que concerne aos testes de imparidade ao goodwill. A • Os estímulos à gestão são responsáveis pelo reconheci-
(2017)
margem de manobra implícita na determinação do valor Hassine e Jilani mento de perdas por imparidade ao invés dos fatores
financeiros.
recuperável através da realização dos testes de impari-
dade, permite aos gestores/administradores das empre- Fonte: Adaptado de Santos, (2018)
sas, enquanto órgão responsável pela preparação da
informação financeira, ajustar os resultados em função Já a subjetividade existente na determinação do nú-
dos seus interesses (Haman e Jubb, 2007). mero de anos para amortizar o goodwill e a complexida-
de que se verifica na implementação dos testes de impa-
Os estímulos à gestão, são assim apresentados co- ridade, representam os principais dilemas do modelo de
mo os principais fatores responsáveis pelo reconheci- amortização e testes de imparidade respetivamente,
mento de perdas por imparidade do goodwill ao invés conforme resulta dos estudos levados a cabo por Carva-

