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            Portugal  já  possui  uma  vasta  história  no  que  toca  a   mos de encargos brutos, o valor oscila entre os 0,5% os
         grandes projetos de infraestruturas, há cerca de 3 décadas   1,2% PIB. Estes discutem também que, o país terá utiliza-
         implementou o seu primeiro grande projeto sob a alçada de   do as PPPs como forma de procurement, de maneira exa-
         uma parceria-público privada, a construção da Ponte Vas-  cerbada, tendo em conta a sua dimensão, questionando-se
         co da Gama, tendo este sido iniciado em 1994. Sarmento e   se este fenómeno não terá contribuído significativamente
         Renneboog (2017) constatam que, o país totaliza mais de   para a crise da dívida soberana em 2011. Segundo Cruz e
         100 projetos (considerando tanto as PPPs como as con-  Marques (2012), a experiência associada às PPPs não terá
         cessões no setor das águas e ambiente), e se apenas con-  sido maximizada, isto porque, por lançar demasiados pro-
         siderarmos as PPPs, existem actualmente 35 projetos. O   jetos  num  tão  curto espaço  de  tempo,  o  Governo Portu-
         setor rodoviário continua a assumir-se como o setor onde mais se   guês, a par do restante setor público, não conseguiu con-
         investiu,  consequentemente,  é  também  o  setor  que  totaliza  o   solidar conhecimentos necessários para conseguir capitali-
         maior  número  de  projetos  realizados  em  esquemas  de  PPPs   zar a magnitude de muitos dos seus projetos.
         (UTAP, 2018).
                                                                  4. Os encargos orçamentais das PPP
            De acordo com Cruz e Marques (2012), a utilização de
         PPPs em Portugal foi maioritariamente focada na constru-  A partir dos dados recolhidos, e para averiguar o custo
         ção  de  estradas.  Esta  rede  terá  aumentado  substancial-  atualizado dos projetos, foi calculado o Custo Público Atua-
         mente, cerca de 700% entre a 1990 e 2007. Em 2012, Por-  lizado  (CPA)  para  os  setores  suprarreferidos.  O  CPA re-
         tugal já totalizava 2700 km de autoestradas, este fenóme-  flecte o custo dos investimentos inerentes à contratação de
         no fez com que o país se colocasse entre os países com a   projetos,  quando  tratado  em  termos  financeiros,  a  partir
         maior  densidade  de  autoestradas  na  Europa,  tendo  28,4   dos gastos que lhe estão associados. O facto destes fluxos
         km/1000 km2 enquanto a média Europeia rondava os 15   financeiros serem gerados em momentos distintos, pressu-
         km/1000 km2.                                         põem que se deva ter em consideração o custo de oportu-
                                                              nidade do dinheiro no tempo. Neste sentido, e dada a in-
            Apesar  do  forte  investimento  no  setor  rodoviário,  o   certeza  que  lhes  está  subjacente,  torna-se  necessário  a
         Estado  Português  decidiu  alargar  possibilidade  de  imple-  reflexão do risco percebido pelo agente. O CPA é calcula-
         mentação  de  projetos  através  de  PPPs,  para  o  setor  da   do tendo em consideração a atualização dos Pagamentos
         saúde. Fê-lo, lançando concursos para projetos relaciona-  feitos ao Estado, à taxa de atualização de alternativas de
         dos com a construção, gestão e manutenção de hospitais   investimento  comparáveis.  No caso das parcerias público-
         públicos.  A  primeira  vaga  do  programa  foi  lançada  em   privadas em Portugal, é utilizada uma taxa de desconto de
         2001 e incluía os hospitais de Loures, Cascais, Braga, Sin-  6%,  resultante  de  duas  componentes:  (i)  Taxa  de  Inflação
         tra e Vila Franca de Xira. O modelo utilizado era inovador e   (assume-se 2% - objetivo da politica monetária do Banco Cen-
                                                                                                          2
         algo complexo, e só seria possível implementá-lo utilizando   tral Europeu (BCE)); (ii) Taxa de desconto real em 4% , deter-
         duas diferentes parcerias: uma das parcerias seria respon-  minada em 2003 pelo Ministério das Finanças.
         sável  pela  construção  e  gestão  de  todas  as  instalações
         num período de 30 anos; a outra ficaria encarregue de pro-  4.1. CPA dos encargos no setor rodoviário
         videnciar serviços clínicos, num período mais curto, cerca
         de 10 anos (Basílio, 2011).                              Os resultados obtidos evidenciam que o setor rodoviá-
                                                              rio continua a ser o setor com maior investimento e custo
            Segundo Sarmento (2014b), em 2011, o investimento   orçamental. A partir do Gráfico 1 é notório o crescimento
         acumulado referente a PPPs em Portugal já constituía cer-  dos valores referentes aos encargos brutos ao nível deste
         ca de 14,8% do Produto Interno Bruto (PIB), tendo assim o   setor. Ao analisar o período decorrido entre 2005 e 2009,
         maior  rácio  PPPs  versus  PIB  na  UE,  consideravelmente   verifica-se uma evolução nos encargos brutos correspon-
         mais elevado que a Grécia, Reino Unido, Hungria e restan-  dente a 3.715,3 milhões de euros (M¤). Contudo, após es-
         te média Europeia                                    se período, observa-se um decréscimo dos encargos entre
                                                              2010 e 2011, esta quebra justifica-se com a não considera-
            Sarmento  e  Renneboog  (2017)  argumentam  que,  a   ção  dos  dados.  A  não  descriminação  entre  os  encargos
         intensa realização de projetos sob a alçada deste esquema   brutos, líquidos e receitas nos OE para 2010 e 2011, colo-
         gerou um volume de encargos que impactou negativamen-  caram em questão a veracidade das previsões fornecidas.
         te  o  Orçamento  do  Estado.  Os  autores  constatam  ainda
         que no período compreendido entre 2011 e 2030, em ter-  ——————————————————————
                                                                2  Despacho n.º 13 208/2003 da Ministra de Estado e das Finanças, publicado no Diário da
                                                                 República, II Série, n.º 154 de 7 de Julho de 2003.
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