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Auditoria: uma atividade de contínuo julgamento R
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Bruno José Machado de Almeida S
Doutorado em Ciências Económicas T
pela Universidade Complutense de Madrid A
Revisor Oficial de Contas D
Professor Coordenador da Coimbra Business School-ISCAC
brunojmalmeida@gmail.com E
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RESUMO aplicação errada das técnicas, mas erros de julgamento aplicados T
ao processo de auditoria ou na divulgação financeira relacionada. A
O desenvolvimento do processo de auditoria tem subjacente um B
conjunto de conceitos não percecionados pelos utilizadores da in- Os erros de julgamento são gerados por inapropriado conheci- I
formação financeira e público em geral. Um deles é o exercício mento dos problemas devido à complexidade da envolvente, ou- L
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do julgamento na interpretação e aplicação das normas e dos prin- tros, porém, têm subjacentes valores éticos como a honestidade, D
cípios contabilísticos. objetividade integridade, etc. (Brooks, 2004:208), referenciais A
não frequentemente observadas no exercício do julgamento em D
Qualquer modelo contabilístico não deve ser encarado, exclusiva- auditoria. E
mente, como uma mera metodologia de aplicação teórico-prática,
mas, também, como uma base contingente que determina o que 2. A relatividade do conceito de julgamento E
deve ou não ser reconhecido, numa envolvente em contínua mu- F
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tação. O público em geral tem da contabilidade e da auditoria uma N
visão de exatidão quase total, porque atribui a estes dois ra- A
Por isso, a simulação mental é um mecanismo importante no siste- mos de conhecimento características de ciências exatas: como N
ma de pensamento do auditor, porque a aquisição de conhecimen- a matemática. A ilusão numérica, pela sua magia, é imediata- Ç
to, por via das evidências, exige síntese e diagnóstico, que aliados mente aceite por grande parte dos interessados nas demonstra- A
à independência, competência profissional e integridade, determi- ções financeiras, que conferem à contabilidade e à auditoria S
nam um julgamento profissional. Estas qualidades não têm sido características de disciplina de pouco pensamento e de ne-
objeto de debate na profissão, sendo este trabalho um contributo nhum julgamento. A contabilidade é tomada no ar (Wallman, N.º
para trazer à reflexão a importância desta problemática. 1996:80), não tendo os diferentes interessados noção do que 114
verdadeiramente representa uma demonstração financeira, um
Palavras-chave: Julgamento, auditoria, independência, afasta- relatório de auditoria, e em suma, o que os contabilistas e os
mento e rometness gap. auditores fazem e podem fazer. Enfatizam-se, excessivamente,
as tecnologias em detrimento dos valores éticos ou dos julga-
1. Introdução mentos. Estes, em contabilidade e auditoria, não podem ser
baseados unicamente nas normas, mas, prioritariamente, no
A independência em auditoria está estritamente relacionada conhecimento profundo do negócio, o que possibilita, aos au-
com a capacidade do julgamento do auditor em matérias que ditores, o exercício de julgamentos mais sagazes e concisos 15
apoiam a emissão de uma opinião sobre a relevância e fiabi- (Rittenberg et al., 2010:37).
lidade das demonstrações financeiras. A estrutura teórica e
prática da contabilidade e da auditoria, no estado atual de co- O AICPA (1955) e Mautz (1959:40-44) referem que o julga-
nhecimento científico, repousa, em grande parte, em princípios mento é o elemento mais importante na condução de uma au-
contabilísticos e normas que determinam o que deve ou não ser ditoria, mas, inicialmente, considerou-se, somente, o chamado
reconhecido. julgamento profissional, obtido pelo treino e experiência profis-
sionais. Aquele não é unívoco como pretende Hicks (1974:40):
Esta estrutura básica de princípios e normas, apesar de contingen- dados certos factos, qualquer auditor selecionará os mesmos
te, constitui uma base otimizada do sistema contabilístico para procedimentos de auditoria e aplicá-los-á com a mesma exten- j
responder às assunções relacionadas com a relevância, compara- são e profundidade. Há, como em tudo na vida, procedimentos u l
bilidade, consistência e prudência. Existe, todavia, uma grande alternativos na condução de uma auditoria (p. ex. seleção de h
base de julgamento, quer na interpretação de princípios e normas, amostras) e Mautz (1975:95) refere a variação de natureza, ex- o
quer na sua aplicação prática. Acresce que os princípios e as nor- tensão e tempo dos testes de auditoria para situações idênticas.
mas não foram contrastados empiricamente nem são cientifica- Peat et al. (1976:13) reconheceram explicitamente a existên- /
mente verificáveis (Wallman, 1996:79), resultando, a sua legiti- cia de vários gaps na compreensão do processo de auditoria, s
midade, da sua aceitação geral. devido à dificuldades na avaliação das alternativas. Com efei- e
to, a seleção de procedimentos específicos, tendo em conta os t
e
Os contabilistas esquecem-se, geralmente, do nível de julgamen- objetivos próprios da auditoria, são altamente subjetivos, não m
to que se encontra implícito em qualquer modelo contabilístico: havendo, uma via sistemática para determinar se os procedi- b
quer seja elaborado ao custo histórico/moeda nominal, segundo o mentos escolhidos são superiores aos outros que poderiam ter r
índice geral de preços ou a custos correntes. sido utilizados. o
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Há uma tendência para que os gestores, contabilistas e auditores Mock e Turner (1981:2-27) realizaram um estudo experimental, 0
focalizem a contabilidade e a auditoria numa ótica reducionista, no qual duzentos auditores com experiência, analisaram uma se- 1
circunscrevendo-as a meras metodologias de aplicação técnico- leção de factos, e concluíram pela existência de uma variabilidade 3
-prática. Contudo, a maioria dos escândalos financeiros, ocorri- significativa nos seus julgamentos e decisões. O automatismo da
dos na Europa e nos Estados-Unidos, não tiveram subjacente a relação causa-efeito é, portanto, contingente em auditoria.

