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         A contabilização para o setor público


         das Parcerias Público Privadas à luz

         das IPSAS: O caso Português



          Joaquim Miranda Sarmento
          PHD in Finance – Tilburg University;
          Professor de Finanças no ISEG e
          Docente convidado na Catolica Lisbon

          School


         Sumário:                                             reconhecimento dos ativos e dos réditos e gastos .
                                                                                               3

         Este  artigo  procura  responder  a  duas  questões:  1)  Como  se  contabiliza   Os motivos resultantes da necessidade de criar uma norma contabilística,
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         para o setor público os encargos com as Parcerias Público Privadas, à luz   tanto para o setor privado, como para o setor público , que define, de forma
         das normas internacionais de contabilidade para o setor público (IPSAS) e   clara e transparente, a contabilização dos diferentes tipos de contrato ine-
         2) Como registaria o Estado Português as 35 PPP, caso decida implemen-  rentes às concessões e às PPP, foram: 1) A falta de certeza no registo das
         tar as IPSAS (como se prevê que venha a fazer em breve).    transações, o que permitia situações de arbitragem ou conflito; 2) As fre-
         Caso o contrato se enquadre no âmbito da IPSAS 32, o Estado deve reco-  quentes alterações aos contratos das PPP, normalmente já na fase final do
         nhecer a infraestrutura no seu balanço, como um ativo tangível. Simultane-  concurso  de  adjudicação,  de  forma  a  cumprir  requerimentos  de  índole
         amente deve registar um passivo, sendo que esse passivo será considera-  contabilística e estatística, sobretudo ao nível das contas nacionais; 3) A
         do financeiro (se houver pagamentos públicos), diferido (se os pagamentos   existência de distorções aos incentivos económicos na utilização das PPP.
         forem apenas dos utentes) ou misto. Em Portugal, no setor das estradas
         encontrámos 5 PPP com passivo diferido e 17 com passivo misto. No setor   De facto, o IPSASB sentiu, tal como já o IASB o tinha sentido, a necessida-
         da saúde, as PPP que gerem o edifício hospitalar representam um passivo   de de clarificar e estabelecer normas contabilísticas para o caso especifico
         financeiro e as PPP que gerem os serviços médicos representam um passi-  das concessões e PPP. Sendo que, no caso do IPSASB, a falta de normas
         vo misto.                                            contabilísticas aplicáveis ao sector público estava a conduzir a situações
                                                              em  que  o  ativo  em  causa  não  era,  em  alguns  casos,  nem  registado  no
         Keywords: Parcerias Público Privadas; IPSAS; Contabilidade Pública inter-  balanço da entidade pública, nem do da entidade privada.
         nacional
                                                               ______________________________________________
                                                               1  A OCDE define PPP como “…um acordo entre o Setor Público e uma ou mais entidades priva-
            1.  Introdução                                     das, no qual estas  últimas prestam um serviço que corresponde aos requisitos definidos pelo
                                                               Governo e que ao mesmo tempo gera lucro para os acionistas, dependendo estes dois requisitos
                                                               dos riscos alocados a cada parte”(OECD, 2008). No entanto, perante os modelos existentes na
         Nas últimas décadas, na construção, recuperação e manutenção de infra-  prática, diversos autores têm levantado dúvidas sobre a eficiência dos dinheiros públicos (e.g.:
                                                               (Froud & Shaoul, 2001); (Shaoul, 2002); (Shaoul, 2005); (Ng & Loosemore, 2007); (Broadbent,
         estruturas e serviços públicos, por todo o Mundo, tem-se recorrido progres-  Gill,  & Laughlin,  2008); (Shaoul, 2009), assim como sobre  a sustentabilidade  orçamental dos
         sivamente mais ao setor privado. Tradicionalmente, o Estado era responsá-  encargos futuros destes contratos (Grimsey & Lewis, 2002); (Grimsey & Lewis, 2005).
         vel por todas as fases do processo, desde a conceção e planeamento até à
         prestação do serviço. O setor privado, apenas participava, em regime de   2  A entidade internacional que normaliza a contabilidade é a “International Federation of Accoun-
         concurso de empreitada pública, na construção das infraestruturas. Contu-  tants (IFAC)”, constituída por 155 organizações representantes de 113 países a nível mundial. A
                                                               IFAC  está organizada nos  seguintes comités:  “Compliance”; Formação; Ética; IASB; Auditoria
         do, as crescentes restrições orçamentais criaram as condições ideais para   Profissional nos Negócios; Sector Público; Auditores Transaccionais (TAC). Em 1986 foi criado o
         alargar o campo de atuação do setor privado. Este passou a ser responsá-  Public Sector Committe (PSC). Uma das suas funções é a aprovação e divulgação de Normas
         vel por um conjunto maior de fases do processo, incluindo a conceção e   Internacionais  de  Contabilidade  do  Sector  Público  (NICSP)  -  ou  Internacional  Public  Sector
                                                               Accounting Standars (IPSAS) . A adopção destas normas é recomendada pelo IPSASB ao nível
         planeamento e a efetiva prestação do serviço. Generalizou-se, assim, so-  dos diferentes países, apesar de não imporem a sua aplicação obrigatória, dado que as IPSAS
         bretudo na Europa, Austrália, Canadá e Nova Zelândia, o recurso à utiliza-  não revogam as normas emitidas nacionalmente por cada país.
         ção das Parcerias Público-Privadas (PPP) . A crescente complexidade da
                                     1
         participação privada na construção e recuperação de infraestruturas e na   3  O tema da contabilização pelo sector privado das concessões e PPP, à luz da IFRIC 12, foi
         prestação de serviços públicos, levou a que o sector privado e o público   abordado de forma muito completa no artigo “Aplicação das IFRS nas concessões de serviços
         sentissem necessidade de clarificar o tratamento contabilístico das conces-  públicos”, do Professor António Gervásio Lérias, na revista TOC nº 116, de Novembro de 2009.
         sões e PPP.                                           4  Na sequência da publicação pelo IASB da IFRIC 12, o IPSASB iniciou um processo de consul-
                                                               tas aos seus membros, sobre a melhor forma de o sector público contabilizar as concessões e
         Do lado do sector privado, o IASB  divulgou em 2008, através do Internatio-  PPP. Desta forma procura-se adaptar as IPSAS às exigências da IFRIC 12, sem contudo esque-
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                                                               cer  as  especificidades  naturais decorrentes  da actuação  pública e  não privada. Esta consulta
         nal  Financial  Reporting  Interpretations  Committee  a  IFRIC  12  (Service   levou  a uma primeira publicação, em Março de 2008,  de um “consultation paper”, seguida da
         Concession  Arrangements),  que  consiste  numa  orientação  sobre  como   apresentação, por uma “task-force” do IPSASB, de um “exposure draft”, em Dezembro de 2009.
         aplicar as IFRS aos contratos de concessão, nomeadamente ao nível do   Esse “exposure draft” (ED 43: Service concession arrangements), foi publicado em Fevereiro de
                                                               2010. Após o período de consultas foi publicada a IPSAS 32.
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