Page 18 - rcf126_Neat
P. 18

18





         ativo das PPP e concessões. Como tal, isso irá limitar de forma muito signi-
         ficativa situações de conflito e de “off balance sheet”. Ou seja, a situação   De acordo com a auditoria da Ernst & Young às PPP em Portugal, em caso
         em que nenhuma, ou ambas simultaneamente, das entidades reconhece o   de aplicação das IPSAS, relativamente às PPP rodoviárias, o ativo do Esta-
         ativo  no  seu  balanço  deixará  de  poder  acontecer.  A  norma,  tal  como  a   do aumentaria em 10.784 milhões €, sendo que o passivo aumentaria em
         IFRIC 12, baseia o reconhecimento do ativo com base no critério do contro-  10.186 milhões € (dos quais 4,6 mil milhões € seriam passivo financeiro).
         lo                                                   Já no setor da saúde, o ativo aumentaria 330 milhões €, sendo que o passi-
                                                              vo aumentaria 343 milhões  € (dos  quais 283 milhões seriam de passivo
            4.  O caso Português                              financeiro). No setor ferroviário, a MST, faria aumentar o ativo em 75 mi-
                                                              lhões € e o passivo em 78 milhões €.
         Em matéria de PPP, o caso Português tem sido particularmente relevante,
         quer pelo número de projetos (35 PPP, mas acima de 100 projetos se se   No total, a aplicação da IPSAS 32 aumentaria o ativo do Estado em 11.190
         considerar as concessões), ao nível do volume de investimento privado e   milhões € e o passivo em 10.607 milhões €.
         dos encargos assumidos pelo Estado (sobre a experiência Portuguesa ver
         entre  outros:  (Cruz  &  Marques,  2011),  (Cruz,  2011),  (Basílio,  2011),   5.  Conclusões
         (Sarmento, 2010), (Reis, 2013), (Sarmento, 2013); (Sarmento & Rennebo-
         og, 2014 a, b, c).
                                                              Com  este  artigo,  procurou-se  responder  a  duas  questões:  1)  Como  se
                                                              contabiliza  para  o  setor  público  os  encargos  com  as  Parcerias  Público
         Apesar da preocupação central na realização de uma PPP ser a utilização   Privadas,  à  luz  das  normas  internacionais  de  contabilidade  para  o  setor
         mais eficiente dos recursos públicos , a forma como as PPP são registadas   público (IPSAS) e 2) Como registaria o Estado Português as 35 PPP, caso
                                 6
         em contabilidade pública é igualmente um aspeto muito relevante no pro-  decida implementar as IPSAS (como se prevê que venha a fazer em bre-
         cesso de tomada de decisão dos agentes públicos. Como registaria o Esta-  ve).
         do Português as 35 PPP existentes, caso decida implementar as IPSAS?
                                                              Por um lado, concluímos que a IPSAS 32 aplica-se a contratos em que uma
         A tabela 1 permite enquadrar cada PPP em termos do modelo do passivo,   entidade pública (concedente) confere, através de um contrato, a um priva-
         que resulta do tipo de pagamentos associados a cada contrato. Verifica-se   do (concessionário), o direito a utilizar uma infraestrutura pública e simulta-
         que todas as concessões rodoviárias estão abrangidas pela norma,  pelo   neamente a empresa privada obriga-se a prestar um determinado serviço,
         que o Estado reconheceria estas infraestruturas no seu ativo tangível, sen-  em condições acordadas, para o qual aufere uma remuneração estabeleci-
         do que cinco teriam a contabilização do passivo por proveito diferido (uma   da.  Nestes  casos,  o  Estado  contabiliza  a  infraestrutura  como  um  ativo.
         vez que a concessão tem apenas receitas de portagem). Já as restantes   Adicionalmente, a contabilização do passivo pode ser realizada como pas-
         PPP rodoviárias teriam um reconhecimento de passivo misto, uma vez que   sivo financeiro (se houver pagamentos públicos), diferido (se os pagamen-
         parte das suas receitas resultam da cobrança de portagens, mas a grande   tos forem apenas do utentes) ou misto. Por fim, o artigo conclui sobre a
         maioria das receitas resulta de pagamentos do Estado, via Orçamento do   aplicação do modelo de passivo às 35 PPP existentes em Portugal.
         Estado.
                                                              Referências
         Já na saúde, as PPP de gestão do edifício hospitalar seriam contabilizadas
         no ativo, e simultaneamente no passivo financeiro, já que os privados são
         remunerados  apenas  pelos  pagamentos  públicos  (por  disponibilidade  do   Basílio, M. D. S. B. 2011. Infrastructure Public-Private Partnerships: Risk
         ativo). Já as PPP de gestão dos serviços médicos seriam registadas como   factors and agents' participation. UTL.
         passivo misto, dado terem receitas decorrentes dos utentes e pagamentos   Broadbent, J., Gill, J., & Laughlin, R. 2008. Identifying and controlling risk:
         do setor público.                                    The problem of uncertainty in the private finance initiative in the UK's Natio-
                                                              nal Health Service. Critical Perspectives on Accounting, 19(1): 40-78.
         Tabela 1 – Modelo de Passivo das PPP à luz da IPSAS 32   Cruz, C., & Marques, R. 2011. O Estado e as Parcerias Público Privadas:
                                                              Edições Silabo.
             Passivo Financeiro   Proveito Diferido   Misto   Cruz, C. O., & Marques, R. C. 2011. Revisiting the Portuguese experience
        Hospital Cascais E. Gestora Edifício  Brisa   Scut da Beira Interior   with public-private partnerships. African Journal of Business Management,
        Hospital Braga E. Gestora Edifício   Lusoponte   Scut da Costa de Prata
        Hospital Loures E. Gestora Edifício  Oeste   Scut do Algarve   5(11): 4023-4032.
        Hospital V.F.Xira E. Gestora Edifício  Litoral Centro  Scut Interior Norte   Grimsey,  D.,  &  Lewis,  M.  K.  2002.  Accounting  for  Public  Private  Part-
                            Douro Litoral  Scut das Beiras Litoral-Alta
                            CASNS   Scut Norte Litoral        nerships. Accounting Forum, 26(3-4): 245-270.
                            CMFRS   Scut Grande Porto         Grimsey, D., & Lewis, M. K. 2005. Are Public Private Partnerships value for
                                    Grande Lisboa
                                    Norte                     money?: Evaluating alternative approaches and comparing academic and
                                    AE Transmontana           practitioner views. Accounting Forum, 29(4): 345-378.
                                    Douro Interior            Ng, A., & Loosemore, M. 2007. Risk allocation in the private provision of
                                    Tunel do Marão
                                    Baixo Alentejo            public  infrastructure.  International  Journal  of  Project  Management,  25(1):
                                    Baixo Tejo                66-76.
                                    Litoral Oeste
                                    Algarve Litoral           OECD (Ed.). 2008. Public-Private Partnerships IN PURSUIT OF RISK SHA-
                                    Pinhal interior           RING AND VALUE FOR MONEY.
                                    MST
                                    Hospital Cascais E. Gestora Estabelecimento   Reis, R. F. a. S., Joaquim Miranda 2013. A ascenção e queda das PPP em
                                    Hospital Braga E. Gestora Estabelecimento   Portugal, Parcerias Público Privadas: Experiências, desafios e propostas:
                                    Hospital Loures E. Gestora Estabelecimento   145-157. Rio de Janeiro: LTC.
                                    Hospital V.F.Xira E. Gestora Estabelecimento
                                                              Sarmento,  J.  M.  2010.  Do  Public-Private  Partnerships  Create  Value  for
         Fonte: Relatório de auditoria às PPP da Ernst & Young
                                                              Money for the Public Sector? The Portuguese Experience. OECD Journal
   13   14   15   16   17   18   19   20   21   22   23