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crédito que não existe juridicamente. O outro consiste na pos- financeiro, na evasão fiscal sistemática, no reembolso de
sibilidade fraude que pode ser intencional, de oportunidade ou suprimentos, na estrutura financeira cada vez mais compli-
de desespero cada com endividamento excessivo, na perda do acesso e,
ou procura ávida de fontes de financiamento
A qualidade da carteira pode degradar-se seriamente
se o acompanhamento for meramente formal e a atividade do Como medidas de contenção do risco podem-se
contencioso pouco ágil, inflexível ou ineficaz. elencar, a título exemplificativa, as seguintes:
Após o desembolso, o credor deve controlar a aplica- • Restringir as condições de desembolso ou renovação
ção dos fundos para evitar excessos ou desvios. Deve limitar- do empréstimo e, no limite, exigir o reembolso;
se as renovações (reformas) automáticas. No crédito de longo • Exigir novas garantais e avales;
prazo deve verificar-se se o cliente continua a cumprir as con- • Rever documentação do empréstimo;
dições obrigatórias. • Solicitar auditoria;
• Circularizar outros credores;
A classificação de um crédito como sendo de risco • Localizar, vigiar e verificar o título de propriedade dos
elevado ou de cobrança duvidosa deve depender de um juízo principais ativos;
sobre a sua recuperabilidade e não de meros atrasos de pa- • Controlar o fluxo de fundos com outras empresas
gamento ou de outras eventualidades. relacionadas;
• Apertar o controlo sobre a atuação do cliente
Para prever atempadamente qualquer degradação na
capacidade de pagamento do devedor, o credor necessita de É evidente que os sinais de crise avolumam-se à
recolher informações sobre a atividade do cliente e sobre as medida que o crédito se torna mais problemático:
tendências da conjuntura económica, e de antecipar correta-
mente o impacto dessas tendências sobre a sua relação com Sinais de crise Comportamento
o cliente. Ativos insuficientes para satisfazer Não pagamento de capital e/ou
passivos juros
Existe todo um conjunto de sinais de alerta ao longo Desorganização da atividade comercial, Falta de resposta a pedidos de
do ciclo de exploração da empresa, desde a aquisição da operacional e financeira informação e esclarecimento
matéria-prima, à produção, comercialização, distribuição e Quebra de competitividade comercial e Venda de ativos e remoção do
cobrança. perdas persistentes equipamento em sistema de leasing
Endividamento excessivo e assunção de Transferência de posse de bens ou
A origem desses problemas pode ser exógena à em- riscos elevados ocultação de valores
presa, num efeito em cadeia que transmite problemas do cli- Falta de fornecimento em produtos Extravio de bens
chave
ente ao fornecedor, como seja, o atraso do pagamento por
parte das entidades governamentais ou das autarquias. Um Fraude declarada e significativa Fuga do principal sócio/acionista ou
gestor sem indicar representante
dos indicadores de deterioração das condições de exploração
é a subida do rácio dos ativos circulantes sobre as vendas Uma das questões associadas com o risco de crédito
para níveis superiores ao normal histórico da empresa ou do é a de imparidade dos saldos dos clientes que se revelem
sector. Este indicador de necessidades de fundo maneio de cobrança duvidosa. Neste sentido compete à auditoria
acrescidas antecipa degradações das margens financeiras. conhecer os procedimentos que são utilizados pela empresa
para estimar essa imparidade comprovando a sua razoabilidade.
Outros sinais têm a ver com a alteração do perfil de
risco da empresa. Na origem pode estar a inadequada execu- De acordo com o §1 da Norma de Contabilidade de
ção de programas de expansão por vezes ambiciosos e mal Relato Financeiro 12 (NCFR12) - os ativos não devem ser
fundamentados em termos técnicos ou financeiros, ou que “escriturados por não mais que a sua quantia recuperável.
excedam a capacidade de controlo da administração. Um ativo é escriturado por mais do que a sua quantia recu-
perável se a sua quantia escriturada exceder a quantia a ser
Igualmente os sinais podem provir da má gestão inten- recuperada através do uso ou venda do ativo. Se este for o
cional. A título de exemplo, grandes aumentos em serviços caso, o ativo é descrito como estando em imparidade e a
pagos a terceiros, incluindo entidades ligadas aos detentores Norma exige que a entidade reconheça uma perda por im-
de participações sociais ou gestores, sugerem uma das for- paridade”
mas mais tradicionais de desnatação das empresas. Os pro-
blemas de gestão refletem-se igualmente no afastamento ou O primeiro aspeto a considerar é que não se deve
mudança frequente de quadros-chave, especialmente no foro atender ao critério fiscal. Na realidade, só por mero acaso, o

