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              AS MEDIDAS QUANTITATIVAS DE CÁLCULO DO RISCO – PARTE I





         Eduardo Sá e Silva

         Doutorado em Ciências Económicas e Empresarias


                                                                             Foto de Edge2Edge Media na Unsplash
         O risco definido através do desvio-padrão (risco padrão)   envolvente. Tais eventos não esperados podem causar riscos fatais
                                                              e conduzir as empresas a situações problemáticas e, no limite, à
         Quando se calcula a média de uma distribuição de probabilidades,   falência.
         procura-se a possibilidade de que esta média represente a distribui-
         ção,  ou  seja,  deseja-se  substituir  as  informações  dadas  por  uma   O modo de tratar com estes riscos fatais é a construção de cenários
         tabela de ocorrências/eventos por um único número, a média, que a   de stress, ou casos limite, em que todos os parâmetros relevantes
         represente e que possa ser usada para análise de forma a facilitar o   assumem valores extremos. Estes valores extremos têm uma redu-
         nosso raciocínio.                                    zida probabilidade de acontecer, mas servem o propósito de eviden-
                                                              ciar as consequências de tais situações.

         A grande questão é saber se esta média é uma boa representação   Deste modo, as medidas quantitativas de risco não captam todas as
         ou não, da distribuição de probabilidades. A resposta a esta ques-  incertezas.  Elas  dependem  de  pressupostos,  que  podem  subesti-
         tão é dada pelo desvio-padrão que informa o grau de concentração   mar determinados riscos que, por sua vez, dependem, muitas ve-
         das  probabilidades  em  torno  da  média.  Quanto  menor  o  desvio,   zes, de fatores qualitativos cuja quantificação não é integralmente
         maior  a  concentração  das  probabilidades  em  torno  da  média  e,   possível.  Deste  modo,  é  habitual  que  os  processos  de  avaliação
         portanto, mais representativa é a média; naturalmente quanto maior   dos  riscos  combinem  quer  pareceres  de  peritos,  quer  medidas
         é o desvio, menos a média representa a distribuição.   quantitativas de risco.

         Assim,  ao  se  tomar  uma  decisão  levando  só  em  consideração  o   Assim, as medidas quantitativas de risco não podem ter a veleidade
         valor  médio  da  distribuição  pode-se  cometer  o  erro  de  que  essa   de substituir os pareceres dos peritos. No entanto, a tendência é a
         média  não  represente  a  distribuição.  Por  essa  razão,  devem-se   extensão das medidas quantitativas a todos os possíveis riscos. Em
         considerar outras medidas, entre as quais se situa o  desvio-padrão.   primeiro lugar, à medida que as bases de dados são mais alargadas
                                                              permitem captar um maior número de fatores, incluindo os que são
         Introdução às medidas quantitativas de risco         de natureza qualitativa. Em segundo lugar, quando não é possível
                                                              quantificar  um  risco  é  possível,  muitas  vezes,  posicioná-lo  numa
         A gestão do risco repousa em medidas quantitativas. Existem várias   lista ordenada (ranking) que permita compará-lo com outros riscos
         medidas de risco. Todas pretendem captar a variação de uma deter-  ou situações.
         minada variável objetivo, como, p.e., resultados, valor de mercado
         ou perdas por incumprimento, motivadas pela incerteza. Regra ge-  Na análise financeira tradicional, o risco deve ser entendido como a
         ral, estas medidas quantitativas são de três tipos:   variação  provável  dos  fluxos  de  caixa  futuros.  Deste  modo,  uma
                                                              aplicação  em  ações  é  tendencialmente  mais  arriscada  que  uma
              Sensibilidade que capta a variação de uma variável objetivo   aplicação em obrigações. A razão radica em que os fluxos de caixa
              em  consequência  de  uma  variação  de  um  parâmetro  do   de  uma  obrigação  podem  ser  estimados  com  bastante  precisão,
              mercado (p.e, uma variação da taxa de juro de 1%);   enquanto os fluxos de caixa provenientes de uma ação são mais
              Volatilidade que capta as variações em redor da média de   incertos  por  serem  função  dos  resultados  líquidos,  da  política  de
              qualquer  parâmetro  aleatório  ou  variável  objetivo,  quer  no   dividendos  e  do  comportamento  da  ação  no  mercado,  que  nem
              sentido ascendente, quer no sentido descendente. A volatili-  sempre é racional quanto seria desejável.
              dade mede a dispersão em redor da média;
              Medidas que se focam só em variações adversas. Tratam   As probabilidades podem ser utilizadas para quantificar o risco de
              só  das  piores  variações  da  variável  objetivo.  O  VaR   uma aplicação. A média ou o valor esperado representa a rendibili-
              (ValueatRisk) é uma medida que só considera o efeito ad-  dade potencial da aplicação.  A variância e o desvio-padrão são as
              verso.                                          medidas estatísticas mais utilizadas na quantificação do risco, sen-
                                                              do igualmente frequente utilizar o coeficiente de variação nas situa-
         Nem todos os fatores aleatórios que alteram o meio envolvente ou   ções  em  que  a  rendibilidade  média  esperada  dos  ativos  que  se
         os mercados financeiros – taxas de juro, taxas de câmbio ou índices   pretendem comparar sejam diferentes. O coeficiente de variação é
         de ações – são mensuráveis. Ocorrem eventos não esperados ou   dado pelo quociente do desvio-padrão pela média (σx/ E(X)). Trata-
         excecionais  que  podem  alterar  de  forma  radical  e  abruta  o  meio   se de um indicador que exprime a dispersão como uma percenta-
                                                              gem da média da variável aleatória.
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